O governo federal lança nesta quinta-feira (22) a convocação para o terceiro grande programa de renegociação de dívidas em três anos. A meta inicial é adquirir até R$ 90 bilhões em débitos podres — valor que supera a soma dos dois Desenrolas anteriores. Mas, enquanto a máquina pública se prepara para injetar esse volume, a inadimplência bate recorde histórico.
Essa contradição expõe a dúvida central: o alívio imediato no balanço dos bancos e no nome do consumidor resolve o problema ou apenas posterga a conta?
O tamanho da aposta e a mecânica oculta
Anunciado em setembro com teto de R$ 15 bilhões, o Desenrola 3.0 teve o escopo expandido drasticamente nesta quarta (21). A Caixa Econômica Federal atuará como compradora de carteiras inadimplentes dos bancos, com deságio mínimo legal de 90%.
Na prática, a instituição vende o “prejuízo” para o Estado com desconto massivo. O consumidor final pode renegociar com abatimentos semelhantes, mas a Medida Provisória não fixa percentual obrigatório por contrato individual.
O mercado secundário de carteiras vencidas há mais de 90 dias movimenta hoje entre R$ 50 e R$ 55 bilhões ao ano, segundo a Deloitte. Há ainda estimados R$ 600 bilhões fora do balanço dos bancos. “Arrojado, mas viável”, resume Ricardo Marin, sócio da consultoria.
Bancos grandes lucram, pequenos hesitam
No Desenrola 2.0, o Nubank liderou renegociações (acima de R$ 1 bilhão), cortando custo de crédito em 5% e economizando US$ 85 milhões. O Bradesco ficou em segundo, com mais de R$ 660 milhões repactuados. Ambos concentram clientela de até cinco salários mínimos (R$ 8.105), público-alvo do programa.
Porém, bancos médios e privados mostram frieza. A venda implica reconhecer perda imediata no balanço, e a expectativa de deságio superior a 90% assusta quem não tem lastro da Caixa para absorver o choque.
- Desenrola 1: R$ 53,2 bi renegociados (14,8 mi de pessoas), desconto 85-90%.
- Desenrola 2.0: R$ 28,37 bi em valor original, R$ 5,71 bi garantidos pelo FGO (desconto ~80%).
- Desenrola 3.0: Potencial de R$ 90 bi até dezembro, desconto mínimo 90% na compra da carteira.
O efeito rebote que assusta analistas
Em agosto, mês em que o segundo programa encerrou, a inadimplência no crédito livre renovou o topo da série histórica do Banco Central: 6,61% dos empréstimos atrasados acima de 90 dias. O UBS BB calcula que o total de negativados subiu 2,7 milhões desde o fim de 2025, alcançando 84 milhões de adultos (51% da população).
Para os analistas do banco, a medida limpa balanços bancários, mas cria risco moral: o consumidor aprende a adiar pagamentos na expectativa de novo socorro oficial. Katherine Hennings (FGV Ibre/BRCG) observa que o primeiro Desenrola aliviou a base da pirâmide, mas o alívio não sustentou.
A proposta alternativa e o vazio estrutural
No debate da Band, Flávio Bolsonaro (PL) apresentou modelo distinto: refinanciamento direto pela Caixa, com carência de 6 meses (PF) e 1 ano (PJ), juros menores e congelamento da dívida. O ministro Dario Durigan (Fazenda) classificou a ideia como “impossível de implementar” e prejudicial ao crédito produtivo.
Especialistas ouvidos convergem em um ponto: nenhum dos modelos ataca as causas raiz.
- Juros reais elevados, pressionados pelo risco fiscal;
- Ausência de educação financeira no momento da contratação;
- Falta de transparência no custo total do crédito (parcela x renda).
“É política de alívio financeiro, não de combate ao superendividamento”, define Lauro Gonzalez (FGV Cemif). Ana Rosa Vilches (DSOP) alerta: carência sem reeducação orçamentária gera falsa sensação de folga, mantendo o consumo desenfreado.
O que o empresário e investidor devem monitorar
O curto prazo traz alívio para provisões de devedores duvidosos (PDD) dos grandes bancos — Nubank e Bradesco já provaram o ganho de eficiência. No médio prazo, três variáveis ditam o cenário:
- Adesão dos bancos médios: se não venderem carteiras, o teto de R$ 90 bi não é atingido.
- Trajetória da Selic: juros altos anulam o fôlego dado pela renegociação.
- Reincidência: histórico mostra que, sem mudança de comportamento, o nome volta ao cadastro negativo em 12 a 18 meses.
Para quem concede crédito ou investe em recebíveis, o sinal é claro: a liquidez momentânea melhora, mas a qualidade do ativo subjacente não muda estruturalmente. A próxima leitura do relatório de inadimplência do BC, em novembro, será o termômetro real se o “Desenrola 3” quebrou o ciclo ou apenas inflou a bolha.
