Faltam 40 rodadas para o fim do Campeonato Brasileiro e a disputa pelo título segue o script habitual. O verdadeiro drama, porém, concentra-se na parte de baixo da tabela: Grêmio, Internacional e Corinthians — três das maiores torcidas do país — brigam para não cair. Duas vagas restam na zona de rebaixamento, já que Remo e Chapecoense estão virtualmente condenados. A ironia cruel é que o maior inimigo desses clubes não veste a camisa adversária.
No futebol, assim como nos negócios, o pânico costuma ser mais letal que a incompetência técnica. Quem se afoga, quase sempre, não é quem não sabe nadar, mas quem perde a calma e abandona a técnica. Os números expõem a falência de gestão nos três vestiários.
O caso Grêmio: técnico-comentarista e ausência de sequência
O Tricolor não consegue vencer duas partidas consecutivas em todo o campeonato. Nos últimos dez jogos, somou uma única vitória — justamente contra a lanterna Chapecoense. Renato Gaúcho retornou ao comando com a missão de reconectar elenco e arquibancada. O que se vê, contudo, é um treinador que age como analista de bancada: dispara críticas públicas contra jogadores e diretoria em entrevistas coletivas.
A estratégia — se é que existe uma — parece apostar no caos como método de motivação. O resultado prático é um vestiário exposto, uma torcida ansiosa e uma diretoria refém de declarações que minam qualquer tentativa de blindagem interna. Sem blindagem, não há execução tática que resista.
Internacional: teto baixo e dependência de lampejos
O Colorado venceu apenas dois jogos nas últimas 15 rodadas — contra Chapecoense e o próprio Corinthians. A troca de comando técnico não alterou a inércia ofensiva: o artilheiro da equipe no torneio é Carbonero, com sete gols, número modesto para quem almeja permanência tranquila.
O retrospecto expõe a volatilidade: entre a 7ª e a 16ª rodada, o time somou 19 pontos em dez partidas. Nas outras 21 rodadas, apenas 13 pontos. A oscilação não é acidental; reflete um elenco com teto técnico baixo, sem reposição à altura e sem um modelo de jogo que sobreviva às más fases individuais.
Corinthians: distração estratégica e apostas de alto risco
O Timão fazia campanha regular até desviar o foco para a Libertadores. O custo da distração foi imediato: oito derrotas consecutivas, interrompidas apenas por um empate com o Vitória. No período, a direção encerrou negociações com Memphis Depay para, dias depois, renovar o contrato do atleta — sinal de desalinhamento entre futebol e gestão.
Para comandar a reta final, contratou Clarence Seedorf, sem treinar profissionalmente há sete anos. A aposta do diretor Marcelo Paz durou uma semana: o executivo foi demitido antes mesmo de o técnico estrear. O vaivém de decisões transformou o planejamento em improvisação contínua.
Os números que explicam a crise
- Grêmio: 1 vitória nos últimos 10 jogos; 0 sequências de 2 vitórias no campeonato.
- Internacional: 2 vitórias nas últimas 15 rodadas; 13 pontos em 21 jogos fora do “bom momento”.
- Corinthians: 8 derrotas seguidas; 2 trocas de diretor em dias consecutivos; técnico sem atividade há 7 anos.
- Vasco: ainda na zona, mas com jogo a menos contra a Chapecoense e melhor momento recente.
O contraponto: gestão lean nos clubes de menor orçamento
Mirassol, Coritiba e Vitória possuem orçamentos drasticamente menores. Ainda assim, apresentam maior coerência: não trocam de rumo a cada resultado negativo, mantêm comissões técnicas por ciclos completos e executam planejamentos de médio prazo. Sabem que, na natação como no campeonato de pontos corridos, a regularidade da braçada supera a força do impulso inicial.
Esses clubes não se desesperam. Respiram entre as braçadas. O resultado é uma probabilidade matemática de permanência superior à dos “grandes” em crise.
O que observar nas próximas rodadas
A equação é simples: dois dos três gigantes cairão, não pela qualidade dos adversários, mas pela incapacidade interna de sustentar um projeto mínimo de gestão de crise. Para o investidor ou executivo que acompanha o esporte como laboratório de liderança, a lição está posta: não existe gestão de resultado sem gestão de processo. Quando a diretoria, a comissão técnica e o elenco falam linguagens diferentes, a tabela cobra a fatura com juros.
Nas próximas semanas, observe qual clube conseguirá, pela primeira vez no segundo turno, alinhar discurso, decisão e execução por três rodadas seguidas. Esse — e apenas esse — terá chance real de escapar do abismo.
