A Comissão Europeia confirmou nesta quarta-feira (21) que vai propor o retorno do Brasil à lista de países habilitados a exportar carne de frango e mel para o bloco. A carne bovina, porém, permanece fora da equação — e a razão expõe uma fragilidade estrutural que custa caro ao maior exportador mundial de proteína animal.
A medida ainda precisa do aval dos Estados-membros, que votarão na próxima reunião do comitê técnico. Se aprovada, encerra um embargo que vigora desde setembro e atingiu em cheio dois dos pilares do agronegócio nacional.
O que mudou em Bruxelas
Uma auditoria realizada in loco pelas autoridades europeias atestou que os controles sanitários brasileiros para frango e mel são “satisfatórios”. O relatório, classificado como “positivo”, foi apresentado aos representantes dos 27 países do bloco, que tiraram dúvidas sobre segregação de lotes, rastreabilidade e prescrições veterinárias.
A Comissão deixou claro: a intenção é formalizar a reinclusão apenas para essas duas categorias. O comunicado oficial usa a expressão “neste momento” ao fechar a porta para a carne bovina — um sinal de que o assunto pode voltar à mesa, mas sem prazo.
Por que o boi ficou de fora
O entrave não é sanitário, mas documental. A UE exige certificação de que nenhuma substância antimicrobiana proibida foi usada durante toda a vida do animal, do nascimento ao abate. O Brasil, segundo a Comissão, “ainda não é capaz de certificar de forma confiável” esse requisito.
Na prática, isso significa que a rastreabilidade individual — do pasto ao prato — ainda não atende ao padrão europeu. Para um país que lidera as exportações globais de carne bovina, a lacuna representa dinheiro parado nos portos e vantagem competitiva para concorrentes como Austrália e Estados Unidos.
O tamanho do impacto em números
- Frango: Brasil é o maior exportador mundial; UE é destino premium, paga mais por corte
- Mel: mercado de alto valor agregado, essencial para apicultores do Sul e Nordeste
- Bovino: embargo atinge o produto de maior receita do setor; JBS, Marfrig e Minerva são as mais expostas
A reabertura para frango e mel alivia a balança comercial de curto prazo. Mas a exclusão do boi mantém a pressão sobre as margens das grandes processadoras, que precisam redirecionar volumes para mercados menos rentáveis.
O que observar nas próximas semanas
A votação dos Estados-membros é o próximo gatilho. Costuma ser protocolar quando a Comissão recomenda, mas resistências políticas — sobretudo de França e Irlanda, sensíveis a temas agrícolas — podem atrasar ou condicionar a aprovação.
Paralelamente, o governo brasileiro promete apresentar novo modelo de rastreabilidade individual para bovinos. Se entregue e validado, a reinclusão da carne vermelha deixaria de ser “questão de tempo” para virar “questão de meses”. Até lá, o embargo segue como o principal termômetro da capacidade do Brasil de converter liderança em volume em liderança em padrão.
