Uma investigação no Sul de Minas revelou que o número de vítimas de um suposto esquema imobiliário quase triplicou em poucos dias, com prejuízo total estimado em R$ 3,2 milhões. A Polícia Civil agora apura 14 casos ligados à mesma imobiliária, e a tendência é que novos registros apareçam.
Na semana passada, o montante conhecido era de R$ 850 mil. O salto expõe uma teia de transações que deixou compradores sem imóvel e sem dinheiro — e levanta dúvidas sobre como a operação funcionou por tanto tempo sem ser interrompida.
Como o esquema teria operado
Segundo os depoimentos colhidos até aqui, o padrão se repetia: interessados pagavam entradas, quitavam dívidas de financiamento ou assumiam parcelas de imóveis já financiados. O dinheiro, porém, nunca chegava aos proprietários originais nem aos bancos credores.
Muitas vítimas só perceberam o problema ao tentar regularizar a escritura no cartório. Nesse momento, descobriam que o título continuava no nome do antigo dono — e que o financiamento seguia em aberto.
A imobiliária envolvida é a Newhouse Ltda., sediada em Pouso Alegre. Corretores da região também aparecem nas denúncias.
Investigação dividida entre duas comarcas
A Polícia Civil separou os procedimentos para agilizar a apuração:
- Bueno Brandão: cinco registros de evento de defesa social, somando 12 vítimas.
- Pouso Alegre: dois inquéritos na Delegacia de Defraudações.
O objetivo agora é ouvir todas as partes e dimensionar a extensão real dos crimes. Novos depoimentos podem elevar ainda mais os números.
Órgãos de controle acompanham, mas sem sanções até o momento
O Ministério Público informou que não instaurou procedimento próprio, mas monitora os inquéritos policiais e a atuação da Promotoria de Bueno Brandão.
Já o Creci-MG (Conselho Regional de Corretores de Imóveis de Minas Gerais) recebeu uma denúncia formal em julho deste ano. O processo administrativo está no setor jurídico para emissão de parecer. Enquanto não houver julgamento, os registros da empresa e dos profissionais permanecem ativos e regulares.
Procurado, o advogado da imobiliária disse que só se manifestará após tomar ciência de todos os casos registrados na Polícia Civil.
Sinais de alerta que passaram despercebidos
O Creci-MG lista práticas que deveriam acender o sinal vermelho em qualquer negociação imobiliária:
- Pedidos de transferência para contas de terceiros — nunca para a conta do vendedor ou do banco financiador.
- Pressão para fechamento imediato, sem tempo para verificação documental.
- Ausência de matrícula atualizada do imóvel no momento da assinatura.
- Corretor ou imobiliária sem registro ativo no conselho regional.
Esses elementos, combinados, formam o perfil clássico de intermediação fraudulenta.
O que fazer se você já foi lesionado
Se você reconhece esse padrão em uma negociação recente, a orientação dos órgãos oficiais é clara:
- Interrompa imediatamente quaisquer pagamentos adicionais.
- Reúna contratos, comprovantes de transferência, e-mails e mensagens trocadas.
- Registre boletim de ocorrência na delegacia mais próxima ou pela internet.
- Comunique o banco financiador para tentar bloquear novas movimentações na conta do financiamento.
- Acione o Creci-MG para formalizar denúncia administrativa contra o corretor ou a imobiliária.
O que observar daqui para frente
As próximas semanas devem trazer desdobramentos importantes: a conclusão dos depoimentos em Pouso Alegre e Bueno Brandão, o parecer jurídico do Creci-MG e a eventual instauração de ações civis públicas pelo Ministério Público. Para quem atua no mercado imobiliário da região — seja como investidor, corretor ou comprador —, o caso reforça a necessidade de checar cada elo da cadeia antes de liberar qualquer valor. A matrícula do imóvel no cartório e a confirmação direta com o banco credor não são burocracia: são a única barreira real contra esse tipo de golpe.
