Joel Kaplan, o principal articulador político de Mark Zuckerberg em Washington, confirmou sua saída da Meta depois de 15 anos no comando das relações governamentais globais. A decisão reconfigura o tabuleiro de poder da big tech justamente quando a regulação de IA e a moderação de conteúdo voltam ao centro do debate no Capitólio.
Kaplan permanece no posto até as eleições legislativas de novembro, mas a transição já começou. Dois executivos recém-contratados assumirão as rédeas de uma área que define o quanto a Meta pode lucrar — ou gastar — com compliance e lobby nos próximos anos.
Por que esta saída é diferente das anteriores
Não se trata apenas de uma troca de cadeira. Kaplan era a ponte direta entre o Palácio do Planalto — ou melhor, a Casa Branca — e o algoritmo. Ex-assessor de George W. Bush, ele arquitetou a aproximação da Meta com o governo Trump, garantindo assento de destaque para Zuckerberg na posse e em almoços estratégicos com líderes do setor.
Sob sua gestão, a empresa sobreviveu ao furacão Cambridge Analytica e reverteu a hostilidade democrata no Congresso. Agora, a saída sinaliza uma mudança de prioridade: menos defesa política reativa, mais expansão de infraestrutura e ofensiva em inteligência artificial.
Os dois nomes que herdam o mapa do poder
Zuckerberg dividiu o espólio de Kaplan entre duas contratações de janeiro, sinalizando que a estratégia de Washington agora tem duas frentes distintas:
- Dina Powell McCormick: Ex-conselheira de segurança nacional e figura central em Wall Street, assume a expansão de data centers, financiamento e relações públicas. Seu foco é concreto: terra, energia e licenças para a infraestrutura de IA.
- C.J. Mahoney: Advogado que liderou o acordo de US$ 17,1 bilhões com estados americanos por danos à segurança infantil. Cuida da blindagem jurídica e regulatória.
A divisão espelha a nova realidade: a Meta precisa construir fisicamente (data centers) enquanto se protege legalmente (litígios de segurança). Kaplan fazia as duas coisas sozinho; agora, a complexidade exige especialistas.
O efeito cascata na cúpula da empresa
A dança das cadeiras não parou na política. David Ginsberg, veterano em comunicação e assuntos públicos, migrou no mês passado para uma nova divisão focada inteiramente em inteligência artificial. Paralelamente, Alexandr Wang foi trazido para comandar o desenvolvimento de IA.
O recado ao mercado é claro: o centro de gravidade da Meta saiu da sala de imprensa e foi para o laboratório. Lobby continua vital, mas deixa de ser a “estrela principal” para virar função de suporte à escalada tecnológica.
O que observar daqui para frente
Três variáveis definirão se a transição foi um acerto ou um risco:
- Meio de mandato (novembro): A composição do novo Congresso ditará o tom da regulação de IA e Seção 230. A equipe de Powell McCormick e Mahoney será testada no fogo cruzado.
- Execução de data centers: Promessas de investimento bilionário dependem de licenças estaduais e federais. A experiência de Powell no setor energético será o termômetro.
- Contenção jurídica: O acordo de US$ 17,1 bi foi o maior da história em segurança infantil. Mahoney precisará replicar essa capacidade de “fechar a porta” antes que novos processos escalem.
Para investidores e executivos, o sinal é de profissionalização da máquina de influência. A era do “consiglieri” único deu lugar a um comitê especializado. Quem apostava no acesso pessoal de Kaplan ao Salão Oval deve recalcular: a nova moeda de troca em Washington é capacidade de entrega de infraestrutura e compliance robusto, não apenas proximidade partidária.
