Um governador eleito apenas com um celular e vídeos de um minuto suspendeu pedágios, congelou tarifas e determinou o calote da dívida estadual. O resultado imediato: obras de duplicação paralisadas, leilão de saneamento sem nenhum interessado e a infraestrutura do estado em deterioração acelerada.
Não há promessa de campanha cumprida. Não há lei aprovada em dois mandatos de deputado. A vitória veio da exposição constante nas redes sociais, onde o enfrentamento ao “sistema” substituiu qualquer plano de governo.
O método: celular no lugar de projeto
O governador construiu a carreira gravando vídeos diante de buracos, enchentes e praças de pedágio. A narrativa é simples: ele contra a corrupção, o povo contra a cobrança. A base aliada, porém, é formada por políticos de carreira — alguns investigados por desvios no orçamento secreto em obras que nunca saíram do papel.
Com a câmera na mão, escolhe-se o enquadramento. Os aliados ficam fora do quadro; os adversários, no centro da mira.
Primeiro ato: a canetada no pedágio
Na primeira semana de mandato, suspendeu a cobrança na principal rodovia concedida do estado por decreto. O contrato prevê reequilíbrio econômico-financeiro e indenização em caso de quebra unilateral. A agência reguladora alertou: a duplicação em andamento pararia e a tarifa seguinte absorveria o prejuízo.
O governador classificou os avisos técnicos como “conversa de quem nunca enfrentou o sistema” e gravou novo vídeo diante das cancelas levantadas.
- Precedente 1: Outro governador reduziu tarifa por decreto; o Judiciário restabeleceu.
- Precedente 2: Prefeito derrubou cabines com retroescavadeiras; o município pagou a conta.
- Precedente 3: Estado deixou concessões vencerem sem substituição; rodovias voltaram ao estado anterior em poucos anos.
Nenhum precedente foi consultado. A decisão foi política, não jurídica.
O congelamento que já conhecemos
Meses depois, a agência reguladora aprovou o reajuste anual contratual. O governador ignorou, amparado em parecer da procuradoria estadual — cuja filial dentro da agência já havia opinado que, em divergência, prevalece a vontade do chefe do Executivo.
Estendeu o congelamento à estatal de energia e à tarifa de mobilidade urbana. A medida provisória de 2012 fez o mesmo com a conta de luz: a redução artificial durou três anos e voltou com juros, paga pelo contribuinte.
Calote anunciado e o sumiço dos investidores
A estratégia fiscal revela o tamanho do problema: o governador propõe simplesmente parar de pagar a dívida estadrolada mensalmente. No dia em que o rolamento cessar, não haverá recursos nem para a folha de pagamento.
Como complemento, suspendeu o pagamento de precatórios. A consequência é imediata: quem contrata com o Estado passa a cobrar prêmio de risco; quem precisa investir antes de receber — regra básica de qualquer concessão — não comparece aos leilões.
O leilão de saneamento programado para o ano seguinte terminou sem uma única proposta. A culpa foi atribuída ao “mercado” em novo vídeo nas redes sociais.
O preconceito que erra o alvo
Críticos focam no comportamento pessoal: a forma de segurar talheres, a camisa suja ao fim da refeição. O detalhe é irrelevante. O método é deliberado: a informalidade rende mais votos que o terno.
O problema real está na execução orçamentária. Sem projeto, sem diálogo com técnicos e sem respeito a contratos, a infraestrutura — estradas, água, energia — torna-se a variável de ajuste.
O que observar daqui para frente
O cenário não é exclusivo de um estado. O padrão se repete em diferentes esferas: líderes eleitos pela exposição digital que governam por decreto e vídeo, ignorando marcos regulatórios e segurança jurídica. Enquanto os vídeos continuam no ar, a rodovia segue em pista simples, a rede de água não chega aos bairros e o capital migra para jurisdições previsíveis.
Para investidores e gestores, o sinal é claro: onde a canetada substitui o contrato, o risco deixa de ser calculável e passa a ser incontrolável. Acompanhar a judicialização das medidas e a reação das agências reguladoras nos próximos meses definirá se há freios institucionais — ou se a deterioração continuará até a próxima eleição.
