As importações de máquinas agrícolas saltaram 144% em quatro anos, empurrando fábricas nacionais para ociosidade e cortes de turnos. O agronegócio, maior cliente do setor, nunca comprou tanto equipamento estrangeiro. Mas por que o produtor trocou o trator nacional pelo importado justamente agora?
O volume passou de 4.500 unidades em 2021 para mais de 11 mil em 2025, segundo a Anfavea com dados do MDIC. No mesmo período, as vendas internas caíram 18%. O primeiro semestre de 2026 acelerou o drama: entraram 11,2 mil máquinas de janeiro a setembro, alta de 42% sobre o ano anterior, enquanto as vendas nacionais recuaram quase 16%.
O tamanho do rombo nas linhas de montagem
O recuo atinge em cheio a espinha dorsal da indústria. Colheitadeiras despencaram de 8 mil unidades (2021) para 3 mil (2025) — e caíram mais 39% nos oito primeiros meses de 2026. Tratores nacionais perderam 14% no ano, ficando em 25,5 mil unidades.
Fábricas operam com folgas. Fornecedores de aço, plásticos, componentes eletrônicos e têxteis sentem a redução de pedidos. O presidente da Anfavea, Igor Calvet, classifica o momento como um dos piores em uma década para o setor.
China e Índia: 93% da invasão vem de dois países
A concentração geográfica é extrema. Juntas, as duas nações respondem por quase a totalidade das entradas. O movimento chinês impressiona: saltou de 2.100 máquinas (2024) para 3.900 (2025) e já beira 5.200 nos nove primeiros meses de 2026 — alta de 117%.
A Índia manteve ritmo forte, passando de 5.800 para 6.000 unidades no mesmo comparativo anual, com mais 5.250 unidades apenas entre janeiro e setembro deste ano. O detalhe decisivo: 90% dos tratores importados têm até 100 cavalos de potência, faixa de entrada onde o preço decide a compra.
Por que o produtor virou as costas para o produto nacional?
Não é falta de safra. O agronegócio expandiu, mas a conta não fecha para o fabricante daqui. Três pilares explicam a retração:
- Commodities em baixa: margens apertadas reduzem capital para investimento.
- Endividamento: dívidas acumuladas travam novos financiamentos.
- Crédito caro: juros altos encarecem equipamentos de alto valor agregado.
O resultado é uma “fuga para o mais barato”. O estudo da Anfavea com a Boston Consulting Group mostra que fabricar um trator médio na China custa 17% menos que no Brasil. Escala, mão de obra, matérias-primas e logística explicam a diferença.
Compras públicas: a porta aberta para o produto estrangeiro
O setor público ampliou o problema. Em 2025, 65% dos 3.318 tratores licitados foram classificados como importados — cerca de 2.200 unidades, entre máquinas completas e kits de montagem. No total de máquinas agrícolas e rodoviárias, foram 10.603 unidades por R$ 3,7 bilhões.
Produtos chineses representaram 33,5% da quantidade e 26% do valor. A Codevasf concentra a maior parte dessas aquisições. Para a indústria, falta exigência de conteúdo nacional mínimo nesses editais.
A barreira legal: Lei de Liberdade Econômica trava defesa
O pleito por preferência nacional esbarra na Lei 13.874/2019. A norma veda reservas de mercado ou entraves a concorrentes estrangeiros em licitações. O TCU reforçou em 2020 que exigir assistência técnica prévia no país restringe a competição.
Hoje, a Anfavea pressiona por mudanças legislativas. Um projeto na Câmara, aprovado na Comissão de Desenvolvimento Econômico em março, propõe:
- Pagar até 20% a mais por produto nacional.
- Pagar até 30% a mais por bem com inovação tecnológica brasileira.
- Autorizar licitações exclusivas em setores estratégicos.
O texto aguarda a Comissão de Finanças e Tributação. Paralelamente, o MDIC afirma acompanhar o tema no âmbito da Nova Indústria Brasil e orienta pedidos de alteração tarifária à Camex.
Efeito cascata: a Bridgestone já fechou fábrica de pneus agrícolas
O alerta virou realidade. A Bridgestone encerrou a produção de pneus agrícolas no Brasil no início de 2025. Eram 200 funcionários; parte migrou para a linha de caminhões, mas houve demissões. “Sem indústria de tratores, não há demanda para pneus, estofamentos, plásticos”, resume Calvet.
O risco sistêmico é a desmontagem da cadeia. Se a montadora nacional vira apenas importadora de kits, o país perde soberania tecnológica e empregos de alta qualificação.
O que observar daqui para frente
Três frentes definirão o próximo capítulo: a votação do PL de preferência nacional na Câmara, eventuais medidas da Camex sobre tarifas de importação e a execução prática da Missão 1 da Nova Indústria Brasil. Se o custo Brasil não for endereçado — juros, tributos, logística —, a substituição de fornecedores nacionais por importados continuará sendo a única equação viável para o caixa do produtor rural.
