Um governador eleito pelo celular suspendeu pedágios e congelou tarifas de energia no primeiro mês de gestão. A popularidade subiu, mas os leilões de infraestrutura esvaziaram e a dívida estadual entrou em zona de perigo. A conta, como sempre, chega para quem produz.
Não houve projeto de governo, nem promessa de esgoto, quilômetro de ferrovia ou posto de saúde. A plataforma foi a exposição constante nas redes sociais, gravando vídeos de um minuto diante de buracos e enchentes. A estratégia funcionou: sem aprovar uma única lei em dois mandatos legislativos, o deputado virou chefe do Executivo estadual.
O decreto que assustou o mercado
Na primeira semana, a caneta determinou o fim da cobrança na principal rodovia concedida do estado. Técnicos da agência reguladora alertaram: o contrato prevê reequilíbrio econômico-financeiro e indenização. A duplicação em andamento pararia e a tarifa seguinte subiria para cobrir o rombo.
O governador ouviu, classificou os avisos como “conversa de quem nunca enfrentou o sistema” e gravou mais um vídeo nas cancelas abertas. Meses depois, a agência aprovou o reajuste anual contratual. A resposta veio via procuradoria estadual: o reajuste não seria aplicado, e a filial do órgão dentro da agência ratificou a prevalência da vontade política sobre o contrato.
A conta que o Estado não consegue pagar
O pacote de bondades incluiu o congelamento das tarifas da estatal de energia e do transporte urbano. A memória curta ignora 2012: uma medida provisória fez o mesmo, e a conta voltou com juros três anos depois, paga pelo contribuinte.
Para fechar a equação, o novo plano mira a dívida pública: a intenção é simplesmente parar de pagar. O detalhe ignorado é que o Estado rola esse passivo mensalmente para honrar a folha de servidores. No dia em que a rolagem travar, não há caixa para salários. Na sequência, veio a suspensão do pagamento de precatórios.
Quando o investidor some do leilão
O efeito cascata no setor produtivo foi imediato e mensurável. Quem contrata com o poder público passou a embutir um prêmio de risco altíssimo nas propostas; quem precisa investir antes de receber — a regra em qualquer concessão — retirou-se do jogo.
- Leilão de saneamento do ano seguinte: zero propostas apresentadas.
- Obras de duplicação rodoviária: canteiros paralisados por ausência de reequilíbrio contratual.
- Novas concessões: investidores precificam o “risgo governador” na tarifa futura, encarecendo o usuário final.
A reação oficial ao leilão deserto foi culpar o mercado, em novo vídeo nas redes sociais.
O método da “camisa suja” e o risco real
Críticos focam no comportamento informal do governador — talheres, roupas, linguagem. O erro de análise está no alvo: o problema não é a estética, é a gestão orçamentária. A “camisa suja” é método deliberado; rende votos e engajamento, dispensando a entrega de resultados concretos.
Os aliados que sustentam a base no Legislativo são políticos de carreira, alguns investigados por repasses de orçamento secreto a obras fantasma — pontes, quadras e postos de saúde onde o dinheiro foi empenhado e sumiu. Diante das câmeras, o governador finge não ver. Com o celular na mão, é fácil escolher para onde apontar a lente.
O que observar daqui para frente
O cenário atual desenha um círculo vicioso: sem segurança jurídica, não há capital privado para infraestrutura; sem obras, a arrecadação futura não cresce; sem receita, o calote na dívida e nos precatórios torna-se a única variável de ajuste. Para o empresário e o investidor, o sinal vermelho está acesso: monitorar a atuação do Tribunal de Contas e do Judiciário sobre os decretos de congelamento tarifário é essencial. A infraestrutura do estado não aguarda o próximo vídeo viral.
