Saúde

O segredo da Amazônia que virou arma high-tech contra amputações no SUS…

Pesquisador aplica spray de nanopartículas de resina de jucá em pé diabético no Amapá
Spray inovador da Unifap usa resina amazônica para tratar pé diabético e evitar amputações

Pesquisadores da Unifap transformaram a resina do jucá em um spray com nanopartículas capaz de reverter quadros graves de pé diabético que levariam à amputação. O produto já está na Anvisa e um ambulatório especializado atende mais de 100 pacientes no Amapá.

O avanço nasceu da união entre 35 anos de ciência e saberes que atravessam gerações ribeirinhas. O resultado pode mudar a economia da saúde pública na região — e abrir um novo capítulo para a bioeconomia amazônica.

Da quintal para a nanotecnologia

José Carlos Tavares cresceu vendo a família tratar doenças com plantas do quintal. Hoje, doutor e coordenador do Laboratório de Fármacos da Unifap, ele lidera uma equipe que só estuda espécies disponíveis em toneladas na floresta. Jucá, copaíba, andiroba, pracaxi, camu-camu e açaí são os alvos principais.

A lógica é simples: não existe medicamento para o SUS sem matéria-prima garantida em escala. O laboratório nasceu em 2005 com essa diretriz — e o jucá emergiu como a grande aposta contra o pé diabético.

Por que o pé diabético é um problema bilionário

A complicação atinge milhões de brasileiros e drena recursos do sistema público. Feridas que não cicatrizam evoluem para infecções profundas. A amputação, além do drama humano, custa caro: próteses, reabilitação, afastamento do trabalho.

O conhecimento popular já sabia que o jucá cicatriza. A ciência precisava provar como e por que — e transformar isso em produto padronizado, estável e reprodutível.

O pulo do gato: nanopartículas contra biofilmes

O maior inimigo das feridas crônicas não é uma bactéria isolada. São os biofilmes — comunidades bacterianas protegidas por uma matriz que antibióticos convencionais mal penetram. O spray de jucá atua justamente aí.

  • Nanopartículas da resina rompem a barreira do biofilme
  • Ação anti-inflamatória e antimicrobiana simultânea
  • Aumento do fluxo sanguíneo na área lesionada
  • Regeneração tecidual acelerada

Em um caso acompanhado pela equipe, a amputação já era indicada. O tratamento com o spray evitou a perda do membro. Mas Tavares alerta: ferida complexa exige combinação de produtos, cada um para uma fase da cicatrização.

Caminho regulatório e estrutura clínica

A pomada à base de jucá concluiu a fase pré-clínica em 2024 e foi submetida à Anvisa. O projeto tem aprovação do CNPq, apoio do Hospital Universitário e parcerias com empresas de bioeconomia.

Em 20 de maio, o HU inaugurou ambulatório especializado. Mais de 100 pacientes já passaram por lá. O atendimento é multidisciplinar: vascular, nutricional, psicológico, fisioterapêutico e clínico — tudo integrado ao protocolo de pesquisa.

O que observar daqui para frente

Se a Anvisa aprovar, o Brasil terá o primeiro fitoterápico nanotecnológico da Amazônia para pé diabético no SUS. O modelo — ciência pública + saberes tradicionais + bioeconomia + atendimento integrado — é replicável para outras doenças negligenciadas.

Para investidores e gestores, o sinal está dado: a biodiversidade amazônica não é apenas “potencial”. Ela já está virando produto regulado, com dados clínicos, cadeia de suprimentos mapeada e estrutura hospitalar validando a eficácia. O próximo passo é escala.