Três publicitários transformaram uma sala emprestada em um estúdio de animação que hoje fatura majoritariamente com propriedade intelectual própria. A estreia de Pipas no Gloobinho coroou uma virada de chave que levou cinco anos para ser concluída. Mas o verdadeiro motor dessa mudança não está apenas no traço, e sim na gestão que evitou a falência no início da jornada.
O momento em que a criatividade quase afundou o negócio
Ruy Okusako, Bruno Bask e Eduardo Nakamura se conheceram na faculdade de Publicidade há duas décadas. Unidos pela paixão por animação — e pela falta de cursos especializados no Brasil na época —, eles importavam livros e materiais para aprender sozinhos.
O estúdio nasceu pequeno, sobrevivendo de encomendas publicitárias. O problema clássico apareceu cedo: os três só pensavam em criar. “A gente passou por uma dificuldade no começo e acabou aprendendo muito na prática”, admite Bask. Sem controle de custos, fluxo de caixa ou indicadores, a operação corria risco real de fechar as portas.
Como a gestão profissionalizou o caos
A virada veio com a humildade de contratar quem sabia o que eles não sabiam. Consultorias administrativas e profissionais de gestão foram trazidos para estruturar a base. Hoje, os sócios acompanham de perto:
- Indicadores financeiros diários;
- Custos de produção por projeto;
- Investimentos em hardware e software de ponta.
Essa disciplina permitiu que a empresa migrasse do modelo service (prestação de serviço) para o modelo owner (dono do conteúdo). Atualmente, o entretenimento responde por 80% da receita; os 20% restantes vêm de publicidade pontual.
A aposta de cinco anos que mudou o faturamento
Lançada em agosto no canal Gloobinho, a série Pipas é o símbolo dessa nova fase. São 26 episódios de sete minutos cada, acompanhando quatro pipas que vivem dilemas de amizade, respeito e convivência. O desenvolvimento consumiu meia década — tempo raro em um mercado acostumado a prazos curtos.
Mas o investimento longo sinaliza maturidade. O estúdio deixou de vender horas de trabalho para construir ativos que geram receita recorrente via licenciamento, janelas de exibição e derivados. É a diferença entre ser fornecedor e ser parceiro de negócio.
Tecnologia e talento: a equação cara por trás de cada frame
Manter a qualidade técnica exige orçamento pesado. A animação demanda workstations de alto desempenho e licenças de software especializado que envelhecem rápido. Equilibrar a renovação desse parque tecnológico com o planejamento financeiro virou rotina estratégica.
A equipe de 25 colaboradores opera em modelo híbrido e remoto. Há profissionais em Minas Gerais, Bahia, Portugal e Austrália. A geografia dispersa não freou a produção; pelo contrário, ampliou o acesso a talentos que não moram em São Paulo.
Por que responsabilidade virou diferencial competitivo
Produzir para o público infantil impõe uma camada extra de exigência. O trio mantém consultoria pedagógica e técnica ativa durante todo o desenvolvimento. “Fazer desenho para criança exige uma responsabilidade de conteúdo. A gente sempre tem um cuidado com muita consultoria para tomar cuidado com tudo o que está oferecendo”, explica Okusako.
Essa postura não é apenas ética; funciona como barreira de entrada. Canais e plataformas globais priorizam IPs que já nascem com compliance pedagógico validado, reduzindo risco regulatório e de reputação.
O que observar daqui para frente
A amizade de 20 anos — os três se tratam como irmãos — segue como ativo intangível. Mas o próximo teste de estresse será a escalabilidade da propriedade intelectual. Pontos de atenção para investidores e parceiros:
- Expansão de Pipas para segunda temporada e produtos licenciados;
- Possíveis coproduções internacionais usando a equipe distribuída;
- Adaptação do pipeline para ferramentas de IA generativa sem perder qualidade artística.
O estúdio provou que sabe trocar o motor com o carro andando. Agora, a velocidade depende de transformar um hit infantil em franquia perene.
