Economia

Bancos: lucro cai no 3º tri e 2027 já preocupa analistas

Gráfico de queda no lucro bancário com taxa de inadimplência recorde de 5,04% no Brasil
Lucros dos grandes bancos caem no 3º tri enquanto inadimplência atinge recorde histórico.

Os maiores bancos brasileiros devem entregar resultados mais fracos no terceiro trimestre, sinalizando que o ciclo de crédito difícil deve se estender até 2027. A combinação de juros altos e renda familiar comprometida eleva o custo do risco e comprime a rentabilidade.

O dado central é a inadimplência: em agosto, o atraso acima de 90 dias atingiu 5,04% do crédito total, recorde da série histórica. Para pessoas físicas, o índice saltou para 6,03%.

Por que o lucro deve encolher agora

Analistas do BTG Pactual e Goldman Sachs apontam três vetores que pressionam o balanço entre julho e setembro. Entender a mecânica ajuda a projetar o que vem pela frente:

  • Provisões maiores (PDD): Os bancos precisam separar mais dinheiro para cobrir calotes esperados, reduzindo o lucro líquido imediato.
  • Crédito mais seletivo: Com medo do risco, as instituições frearam a origem de novos empréstimos, o que achata a receita com juros.
  • Controle de despesas: Para compensar, cortaram custos operacionais, mas o efeito não compensa a queda da margem financeira.

A mudança contábil da Resolução 4.966 do Banco Central — que passou a exigir provisão baseada em perda esperada, não mais em perda incorrida — responde por cerca de 40% da deterioração estimada pelo Goldman Sachs. O resto é deterioração real da qualidade dos ativos.

O mapa de risco por instituição

Não há impacto uniforme. A exposição a diferentes perfis de cliente cria uma dispersão clara de resultados esperados para o trimestre:

Banco Lucro Estimado ROE Projetado Ponto de Atenção
Itaú Unibanco R$ 12,7 bi 23,9% Carteira mais conservadora; resiliência maior
Santander Brasil R$ 3,2 bi 12,7% Único com ROE estável vs. 2º tri; seletividade antiga
Banco do Brasil R$ 3,8 bi (consenso) 7,4% Exposição pesada ao agro; MP 1.376 chegou tarde no tri
Bradesco R$ 7,1 bi 16% Foco em garantias amortece, mas baixa renda pressiona
Nubank US$ 1,1 bi (~R$ 5,55 bi) 32,7% Sem garantia, mas carteira curta e rentabilidade alta
BTG Pactual R$ 5,2 bi 26,4% Destaque positivo: crédito saudável + asset management

O nó do agronegócio e a MP que chegou atrasada

O Banco do Brasil carrega o peso maior. A renegociação de dívidas rurais via Medida Provisória 1.376 passou a valer apenas no fim do trimestre, limitando o alívio imediato nas provisões. O Citi projeta lucro 40% menor na comparação trimestral e cortou estimativas para 2026 e 2027 em 20%.

Para o Goldman Sachs, a “exposição excessiva ao setor rural” somada à “fragilidade nos pagamentos em dia” — que afeta até a carteira de cartões — torna o BB o caso mais sensível da temporada.

Pequenas empresas e baixa renda: o termômetro do risco

Segmentos mais sensíveis ao ciclo de juros seguem como alerta vermelho. Nubank e Bradesco têm maior exposição a esse público. No caso do Nubank, a curta duração da carteira sem garantia e o spread elevado funcionam como colchão, mas o crescimento deve desacelerar. No Bradesco, a priorização de linhas com garantia (consignado, veículos, imóveis) atua como amortecedor.

O Itaú BBA resume o sentimento para as conferências de resultados: espera-se um “tom mais cauteloso” nas projeções futuras, dado o grau de incerteza sobre a atividade econômica no curto prazo.

O que observar daqui para frente

A temporada de balanços serve como termômetro para 2025 e 2026. Três sinais práticos merecem monitoramento nas próximas semanas:

  • Guidance de PDD para 2025: Se os bancos mantiverem provisionamento elevado, o crédito seguirá restrito.
  • Evolução da inadimplência PJ: O índice de 3,35% (maior desde 2017) pode indicar contágio ao emprego e à renda.
  • Impacto real da MP do Agro: O fluxo de renegociações no 4º trimestre ditará o tamanho da provisão extra do BB.

O cenário base do mercado precifica juros altos por mais tempo. Qualquer surpresa na inflação ou no fiscal pode alongar esse ciclo — e adiar a recuperação da rentabilidade bancária para além de 2027.