Economia

BNDES enxuto ou expandido? O que Flávio e Lula projetam para o banco de fomento

Sede do BNDES no Rio de Janeiro com gráficos de desembolsos contrastando gestões Lula e Bolsonaro
BNDES: disputa entre visão enxuta de Flávio Bolsonaro e expansão atual de Lula

Analistas projetam um BNDES drasticamente menor em um eventual governo Flávio Bolsonaro, num cenário que inverte a lógica dos últimos três anos. A disputa pelo Planalto, com segundo turno marcado para 25 de outubro, coloca em lados opostos duas visões radicalmente diferentes para o principal banco de desenvolvimento do país.

Enquanto a gestão atual elevou os desembolsos a R$ 75,6 bilhões no primeiro semestre de 2026 — maior volume para o período desde 2015 —, a expectativa do mercado financeiro é de retrocesso deliberado caso o senador do PL vença a eleição.

O modelo liberal e o papel residual do banco público

A economista Juliana Inhasz, do Insper, resume a equação: mesmo com viés liberal, um governo Flávio não conseguiria prescindir totalmente do BNDES, mas tenderia a usá-lo como instrumento de última instância. A ideia central é deslocar a originação de crédito para o setor privado, reduzindo a pegada fiscal do Estado na economia.

Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, traça um paralelo direto: a tendência seria replicar o desenho do governo Jair Bolsonaro, quando a instituição concentrou-se em estruturar projetos de infraestrutura e privatizações, encolhendo a carteira de empréstimos diretos.

Números que explicam a virada de chave

Os dados da série histórica corrigida pela inflação mostram a magnitude da expansão recente:

  • R$ 75,6 bi desembolsados no 1º semestre de 2026
  • +31,2% ante igual período de 2025
  • Maior volume para janeiro-junho desde 2015 (R$ 124,3 bi)
  • Desembolsos acumulados em 12 meses equivalem a 1,4% do PIB

Para efeito de comparação, o indicador já superou 4% do PIB em 2009 e 2010, auge do uso contracíclico do banco nas gestões petistas anteriores. A proporção atual, embora em alta, ainda está distante desse pico.

Inflação, juros e o cálculo político por trás da retração

Mas o efeito mais relevante aparece na política monetária. Vale argumenta que, ao frear a liberação de crédito via bancos públicos, o governo evitaria pressionar a inflação — criando espaço para que o Banco Central reduza a Selic de forma mais sustentável. O BNDES ficaria restrito a projetos com externalidades sociais claras e onde o setor privado não atua, como transição energética e inovação de alto risco.

O plano de governo de Flávio, contudo, mantê ambições específicas: apoio à internacionalização de pequenas e médias empresas e financiamento de obras de infraestrutura. A assessoria da campanha não respondeu aos questionamentos sobre como conciliar essas promessas com a retração geral.

O contrapeso: continuidade da reindustrialização

Do outro lado, Gilberto Braga, do Ibmec, destaca que uma vitória de Lula manteria a orientação vigente desde 2023. Sob o comando de Aloizio Mercadante, o BNDES adotou a tese de complementaridade ao mercado — não substituição — e retomou investimentos em equity via BNDESPar.

Os pilares atuais incluem:

  • Nova Indústria Brasil (inovação, digitalização, competitividade)
  • Infraestrutura logística: ferrovias, mobilidade urbana, portos
  • Transformação da matriz energética

O balanço do primeiro semestre mostrou lucro e inadimplência de apenas 0,05% — muito abaixo da média do sistema financeiro (4,68%) e até das grandes empresas (0,66%).

O que observar daqui para a frente

O segundo turno definirá não apenas o ocupante do Planalto, mas a arquitetura do crédito de longo prazo no Brasil. Empresários e investidores devem monitorar três variáveis nas primeiras semanas do novo mandato: a sinalização para a presidência do BNDES, o ritmo de novos desembolsos nos primeiros 100 dias e a eventual revisão das metas da BNDESPar. A magnitude da mudança — ou da continuidade — ditará o custo de capital para projetos de maturação longa nos próximos quatro anos.