Tecnologia

Robôs de entrega apanham nas ruas: o lado sombrio da IA que ninguém previa

Robô de entrega Serve Robotics tombado na calçada de Los Angeles com rodas tortas após agressão
Robô de entrega derrubado em Los Angeles revela onda de violência contra máquinas autônomas nos EUA

Entregadores autônomos estão sendo chutados, derrubados e até arremessados de pontes nos EUA. A violência contra as máquinas expõe uma fratura social que vai muito além de vandalismo.

O episódio mais recente ocorreu em Los Angeles: um robô da Serve Robotics tombado na calçada, rodas tortas, incapaz de se levantar sozinho. Um transeunte o ergueu. Horas depois, o mesmo equipetava chutes de um homem que encarava seus “olhos” de LED antes do golpe final.

Os números por trás do caos

Cerca de 5.000 robôs operam hoje nos Estados Unidos, segundo Dan Ives, analista da Yorkville Ives. A projeção para três anos: 8.000 unidades e um mercado superior a US$ 5 bilhões (R$ 25,3 bilhões).

Parcerias com DoorDash e Uber Eats já colocam as máquinas em pelo menos dez regiões metropolitanas. Elas navegam pelo trânsito, abrem compartimentos térmicos e transportam até seis pizzas grandes por viagem.

Quando a tecnologia vira alvo

Em 2024, a lista de agressões documentadas impressiona:

  • Multidão cerca e espanca robô em Los Angeles após a World Series — 700 mil visualizações
  • Homem tenta lançar equipamento de uma ponte em Miami
  • Trio filma destruição em Sacramento — 2,5 milhões de views; legenda: “Protegendo o mundo da IA”
  • Robô circula na Filadélfia com “me destrua, por favor” escrito na testa — 3 mil curtidas

A viralização nas redes pode estar incentivando os ataques. “Conteúdos controversos geram cliques”, observa Lindsay Ouellette, professora de psicologia na Universidade La Salle.

Medo de substituição ou revolta contra vigilância?

Eunisses Hernandez, vereadora de Los Angeles, vê um padrão: “As pessoas sentem que estão ficando para trás. Essa é a forma mais próxima de reagir ao avanço da IA, além da internet.”

O temor do desemprego se mistura à sensação de vigilância. Em Glendale, o prefeito Ardashes Kassakhian descreveu a chegada dos robôs como “algo saído de filme de ficção científica”. Em Chicago, o vereador Daniel La Spata diz que “surgiram da noite para o dia”.

Moradores questionam: as máquinas deveriam ser proibidas em áreas de grande fluxo? Estão substituindo trabalhadores humanos? Quem regula a coleta de dados?

O lado que as empresas mostram

Ali Kashani, CEO da Serve Robotics, admite: “Vandalismo e aceitação social estavam entre nossas principais preocupações.” Os robôs foram desenhados com “olhos” brancos e nomes humanos nas laterais para parecer inofensivos.

Zach Rash, da Coco Robotics, argumenta que a tecnologia cria empregos: a cada dez robôs, surge uma vaga de engenharia. As máquinas também mapeiam calçadas e compartilham dados com apps que ajudam deficientes visuais.

Robôs causando seus próprios problemas

Nem toda confusão vem de humanos. Registros policiais e vídeos mostram robôs:

  • Bloqueando ambulâncias e congestionando calçadas
  • Colidindo com caminhões, trens e até um carro autônomo
  • Caindo de escadas e atravessando vidraças
  • Invadindo área de incêndio ativo
  • Batendo em prédio de 15 andares e quebrando janela (Miami, janeiro)

Para a polícia, a prioridade é baixa. Tom Saggau, do sindicato policial de Los Angeles, foi direto: “Esta é Los Angeles. Se tivermos que nos preocupar com isso, estaremos em sérios apuros.”

O que observar daqui para frente

Los Angeles já aprovou estudo de impacto sobre pedestres e acessibilidade. Glendale propôs pausa na expansão. O distrito de La Spata em Chicago votou contra mais robôs nas ruas.

Para investidores e empresários, o sinal é claro: a aceitação social pode ser o gargalo real — não a tecnologia. O mercado de US$ 5 bilhões depende de resolver a convivência antes de escalar. A próxima onda de regulamentação municipal definirá se os robôs entregam comida… ou se tornam sucata nas calçadas.