Economia

China cresce 4,5%: o segredo que ninguém conta sobre o PIB…

Gráfico de crescimento do PIB da China 4,5% terceiro trimestre com ícones de fábrica e tecnologia
China atinge 4,5% de crescimento no PIB do 3º trimestre, mas estrutura econômica preocupa analistas.

O PIB chinês avançou 4,5% no terceiro trimestre, superando a mediana de 4,4% projetada pelo mercado e mantendo a meta oficial de 4,5% a 5% ao alcance. O alívio imediato, porém, mascara uma fratura estrutural: o motor do crescimento mudou de endereço e quem não perceber a tempo corre risco de calibrar mal a exposição ao gigante asiático.

O motor que puxa o trem

Diferente do passado, não é o consumo das famílias nem o setor imobiliário que sustentam a expansão. A força vem da oferta: exportações dispararam 36% em setembro (em dólares), turbinadas pelo ciclo global de inteligência artificial e por uma máquina industrial que não para.

A produção industrial acelerou para 5,5% em setembro, ante 5,2% em agosto. O superávit comercial caminha para romper o recorde de US$ 1,2 trilhão de 2023, criando um colchão externo que compensa a anemia interna.

O freio que não solta

Do lado de dentro, o cenário segue frágil. O investimento em ativos fixos acumula queda de 7,2% no ano, arrastado pelo quinto ano consecutivo de crise imobiliária. Os preços de imóveis novos em 70 cidades caíram 0,14% em setembro — uma melhora marginal frente a agosto, mas ainda em território negativo.

O varejo surpreendeu com alta de 1,1%, mas a letra miuda revela o truque: subsídios estatais para troca de eletrônicos e “aparelhos de comunicação” inflaram o número. Sem o estímulo artificial, o consumo real mal sai do lugar.

  • Exportações (set/24): +36% a/a (USD)
  • Produção Industrial: +5,5% a/a
  • Varejo: +1,1% a/a (impulsionado por subsídios)
  • Investimento Fixo (Jan-Set): -7,2% a/a
  • Preços Imóveis (70 cidades): -0,14% m/m

A guerra comercial já começou

O sucesso exportador tem preço. Bruxelas impôs cotas para carros híbridos chineses e prepara novas salvaguardas para a indústria pesada. A dependência de um único motor — o externo — transforma o superávit em alvo político. Qualquer escalada protecionista atinge direto a única perna forte da economia no momento.

O diagnóstico dos especialistas

Para Yuhan Zhang, do Conference Board, a China opera no modo “lado da oferta”. “Isso sustenta o curto prazo, mas a recuperação só será sustentável se o consumo de serviços e a confiança das famílias voltarem”, resume. Lynn Song, do ING, vê a meta anual viável, mas alerta: a base para um desempenho estável “ainda precisa ser consolidada”, nas palavras do próprio NBS.

O que observar daqui para frente

Três variáveis ditam o próximo trimestre: a intensidade do pacote de estímulo fiscal prometido por Pequim (ainda vago em detalhes), a velocidade de estabilização do setor imobiliário e a reação de Washington e Bruxelas ao tsunami exportador chinês. Quem opera ativos expostos à China deve monitorar crédito social total e vendas de imóveis por metro quadrado — são eles que dirão se a virada de ciclo é real ou apenas um suspiro estatístico.