Mensagens extraídas do celular do banqueiro Daniel Vorcaro revelam que a advogada e influenciadora Gabriela Prioli atuou como porta-voz informal do Banco Master por 12 meses, com roteiros submetidos à aprovação prévia do próprio dono da instituição. Quatro vídeos publicados sob essa dinâmica foram posteriormente apagados por ela.
A reportagem baseia-se em diálogos entre Vorcaro e Ana Matos, ex-chefe de comunicação e marketing do banco, obtidos pelo jornal O Estado de S. Paulo. O material expõe uma operação coordenada para blindar a imagem da instituição em meio a negociações sensíveis.
Como funcionava a engrenagem
Segundo as mensagens, Ana Matos confirmou ao chefe em abril de 2025: “o contrato está assinado por 12 meses”. A executiva descreveu ainda a montagem de uma rede de cerca de 15 influenciadores de diferentes espectros políticos, com a missão de atacar a imprensa e defender os negócios do banco.
O fluxo era direto: Prioli gravava, enviava à equipe do Master para revisão e incorporava as alterações solicitadas por Vorcaro. Em 4 de abril, o banqueiro escreveu: “Prioli ótima tacada”. Dois dias depois, classificou a contratação como a melhor estratégia da instituição.
Interferências diretas no conteúdo
As mensagens mostram três tipos de ingerência recorrentes:
- Citação obrigatória: Vorcaro pediu para ser mencionado nos roteiros — “Acho que no texto ela tem que me citar”.
- Sanitização política: Ordem expressa para remover referências ao PT — “Tira PT. Pessoas querem politizar”.
- Narrativa de vítima: Ana Matos incluiu a tese de que Vorcaro sofria preconceito de grandes banqueiros — “Coloquei isso na Prioli. Pra dar esse gancho”.
O timing estratégico
O primeiro vídeo foi ao ar no início de abril de 2025, dias após vazar a negociação de compra do Master pelo BRB. Prioli se apresentou como “interessada”, não especialista. Em 18 de abril, Vorcaro sugeriu conteúdo sobre os CDBs do banco para reter investidores. No vídeo, a influenciadora afirmou que o produto “é mais seguro porque é garantido pelo FGC”.
Mas o episódio mais agressivo ocorreu em maio. Vorcaro orientou: “Tem que bater em jornalista não no BTG”. A diretriz era desviar o foco de críticas ao banco para a imprensa.
Controle de danos e vídeos apagados
Em 28 de julho, Ana Matos enviou a Vorcaro um novo vídeo gravado por Prioli, avisando: “Temos a Prioli na manga”. O banqueiro reprovou e pediu ajustes. Dois dias depois, a executiva confirmou: “Ela absorveu nosso pedido”. A publicação foi adiada porque o noticiário era dominado pelas sanções dos EUA ao ministro Alexandre de Moraes.
Ao todo, ao menos quatro publicações teriam sido feitas sob orientação da equipe do Master. Todas foram removidas pelos canais da influenciadora.
A versão de Prioli
Em nota, a influenciadora nega qualquer vínculo comercial com Vorcaro ou o Banco Master. Afirma que o banqueiro “nunca editou, aprovou ou orientou qualquer conteúdo” e que 100% de seu faturamento está documentado por notas fiscais, nenhuma emitida para o banco ou empresas ligadas a ele. Diz ainda que medidas judiciais já estão em andamento.
O que observar daqui para frente
A disputa agora migra para o campo probatório: se houver comprovantes de pagamento ou contratos assinados, a versão de “ausência de relação comercial” ruirá. Para investidores e correntistas do Master, o episódio levanta dúvidas sobre a transparência da comunicação institucional em momentos de estresse. Para o mercado de influência, acende o alerta sobre a linha tênue entre opinião genuína e conteúdo contratado disfarçado. Acompanhe os desdobramentos judiciais e eventuais posicionamentos do Banco Central sobre práticas de marketing disfarçado de jornalismo independente.
