Meio Ambiente

Seca extrema ameaça rotas vitais da Amazônia e Pantanal: o que está em jogo

Rio Madeira com nível críticamente baixo durante seca extrema na Amazônia, expondo bancos de areia e dificultando navegação
Seca histórica reduz nível do rio Madeira a ponto crítico, ameaçando transporte fluvial na Amazônia

As principais hidrovias da Amazônia e do Pantanal entraram em situação de alerta oficial, com níveis críticos que já impõem restrições à navegação de cargas e passageiros. O relatório do Ministério de Portos e Aeroportos, com dados até 5 de outubro, revela um cenário que preocupa exportadores, comunidades ribeirinhas e o próprio governo. A pergunta que fica: até onde a estiagem vai comprometer o escoamento da safra e o abastecimento interno?

Madeira: abaixo do limite de segurança, mas com luz no fim do túnel

Em Porto Velho, a régua marcou 3,07 metros no fim de setembro — 1,37 metro a menos que no início do mês. A marca de 4 metros dispara restrições; a de 2 metros paralisa tudo. Mesmo assim, a hidrovia movimentou 12,1 milhões de toneladas de soja e milho em 2025, além de abastecer municípios com combustíveis e insumos essenciais.

A boa notícia: o nível atual está bem acima dos 49 centímetros registrados em setembro de 2024. A previsão aponta início da subida das águas ainda em outubro, com trajetória próxima à mediana histórica. A recuperação parece encaminhada, mas o timing é decisivo para a safra que chega aos terminais.

Tapajós: o gargalo que mais cresce — e o mais frágil

No Pará, os pontos críticos de Itapaiúna (3,15 m) e Monte Cristo (2,99 m) beiram o limite operacional. Itaituba e Santarém, referências para a navegação, fecharam setembro em 2,40 m e 2,63 m, respectivamente — ambas com previsão de permanecer abaixo da média histórica.

O corredor responde por 2,38 milhões de toneladas no primeiro bimestre de 2026, sendo 86% soja e milho. Grãos chegam de caminhão pela BR-163, sobretudo de Mato Grosso, e seguem em barcaças para exportação. A Frente Parlamentar da Agropecuária estima impacto de até R$ 850 milhões se a dragagem não avançar — cargas migrariam para rodovias, inchando custos.

O entrave: o Dnit cancelou em setembro a licitação de R$ 74,8 milhões para dragagem do Tapajós, após diálogo com povos indígenas e comunidades tradicionais contrários à intervenção. O ministério confirma que a contratação segue suspensa por decisão federal.

Negro e Solimões: contrastes que definem a logística amazônica

Manaus registrou 18,80 metros no Negro — queda de 5,21 metros no mês e 1,72 metro abaixo da mediana. Ainda assim, supera os 13,14 metros de 2024. O risco imediato são bancos de areia que podem fechar trechos entre Manaus e Coari, vitais para passageiros e pequenas cargas.

Já o Solimões surpreende: Tabatinga (3,47 m) e Coari (6,70 m) estão acima da mediana histórica. Tabatinga subiu 41 centímetros na última semana de setembro. O cenário favorável alivia a pressão sobre a rota que liga a fronteira oeste à capital amazonense.

Pantanal: a bacia do Paraguai em seca extrema persistente

Três pontos-chave expõem a gravidade:

  • Cáceres (MT): 77 cm — mediana histórica de 1,42 m
  • Ladário (MS): 1,18 m — mediana de 2,55 m
  • Porto Murtinho (MS): 2,38 m — mediana de 4,48 m

O relatório classifica a situação como “seca extrema mantida”, com previsão de cotas abaixo de 1 metro em Ladário durante outubro e novembro. Em 2024, a movimentação despencou 58%, para 3,3 milhões de toneladas. A hidrovia conecta o Pantanal a portos da Argentina e Uruguai — um corredor internacional sob ameaça direta.

O que o governo tem em campo (e o que falta)

O Ministério mantém contratos de dragagem de manutenção — sem aprofundamento, apenas desassoreamento — para garantir navegabilidade até o nível mínimo de parada:

  • Amazonas/Solimões: R$ 459,48 milhões (5 anos, 2º ano de execução)
  • Madeira: R$ 123,26 milhões (3 anos, 1º ano, até nov/2029)
  • Paraguai: R$ 69,6 milhões em obras + R$ 15,42 milhões supervisão + R$ 9,57 milhões gestão ambiental (3º de 5 anos)

No Tapajós, a exceção: a dragagem de manutenção está suspensa por decisão federal, sem data para retomada.

O que observar daqui para frente

A previsão climática para outubro-dezembro aponta menos chuva em parte da Amazônia e piora da oferta hídrica nas bacias do Madeira, Negro e Tapajós. O risco não é de paralisação total imediata, mas de restrições progressivas que forçam redução de calado, alongamento de viagens e transferência modal cara. Quem depende dessas rotas — do produtor de Mato Grosso ao comerciante de Manaus — deve monitorar os boletins semanais da Secretaria Nacional de Hidrovias e planejar contingências logísticas agora, não quando a régua bater nos 2 metros.