Uma ação no centro de São Paulo reuniu 137 refugiados e migrantes de 23 nacionalidades em busca de trabalho — e 70% deles saíram de casa desempregados. Mais da metade, porém, não quer apenas uma vaga: quer abrir o próprio negócio.
O evento Conexões que Transformam, realizado neste sábado (17) pela Aliança Brasil Cidadã, expõe um paradoxo: gente com formação e experiência que esbarra em barreiras burocráticas e culturais. O que falta para transformar essa força de trabalho em resultado econômico?
O retrato de uma força de trabalho invisível
Victor Arce, 65 anos, marceneiro na Venezuela, e a esposa Morelba, 64, chegaram há um ano fugindo de custos médicos inviáveis. Hoje vendem artesanato enquanto buscam formalizar um microempreendimento. A história deles se repete entre venezuelanos, congoleses, haitianos, afegãos, iranianos e sírios — as principais nacionalidades presentes.
Dos participantes, 70% estavam desempregados, segundo Maria Helena Santuche, líder do Comitê de Inserção do Grupo Mulheres do Brasil. E mais de 50% declararam vontade de empreender — mas por necessidade, não por oportunidade.
“Esse é um empreendedorismo de sobrevivência”, resume Flavio Simonato, diretor de Pessoas da Konecta Brasil. “Elas precisam de orientação sobre como o mercado funciona aqui, não apenas de vagas.”
Por que diplomas e experiência não bastam
O Alto Comissariado da ONU para Refugiados (Acnur) contabiliza mais de 1 milhão de pessoas em situação de refúgio ou necessidade de proteção no Brasil, vindas de 160 nacionalidades. Muitas chegam com formação superior — médicos, engenheiros, professores — e enfrentam três muros simultâneos:
- Idioma: português é barreira imediata para 100% dos não lusófonos.
- Validação de diploma: processos que levam anos impedem o exercício legal da profissão.
- Documentação: quem foge de guerra ou perseguição raramente carrega papéis traduzidos e apostilados.
Vivian Holzhacker, do Acnur, resume: “Chegam com experiência, mas precisam se reinventar. Acabam no emprego que aparece, não no que sabem fazer.”
O que o evento resolveu — e o que fica pendente
A ação de um dia entregou workshops de currículo (com tradução), orientação jurídica, palestras sobre mercado de trabalho e entrevistas com empregadores. Também distribuiu cestas básicas e brinquedos — alívio imediato, não solução estrutural.
Mas o gancho mais valioso foi a conexão com canais permanentes. A plataforma Help do Acnur permite buscar organizações por estado e município. A Aliança Brasil Cidadã oferece cursos gratuitos o ano todo: informática, inteligência artificial, manicure. O Grupo Mulheres do Brasil mantém canal direto pelo e-mail refugiados@grupomulheresdobrasil.org.br.
O que observar daqui para frente
A validação de diplomas estrangeiros tramita em comissões do MEC e conselhos profissionais — e o ritmo não acompanha a chegada de novos perfis. Enquanto isso, empresas que adaptam processos seletivos para avaliar competências reais, não apenas certificados brasileiros, acessam um pool de talentos subutilizado.
Outro vetor: a regularização documental. Novas portarias do Ministério da Justiça têm acelerado a emissão de RNE e CPF para solicitantes de refúgio, mas a tradução juramentada segue como gargalo de custo e tempo.
Para quem investe ou gere negócios, a conta é simples: mais de um milhão de pessoas com urgência de renda, formação diversa e zero rede de apoio. Quem desenhar pontes — capacitação técnica, mentoria, crédito orientado — captura valor onde hoje só há assistencialismo.
