A empresária goiana Nathália Secco entrou para a lista das 100 Mulheres Poderosas do Agro 2026 da Forbes Brasil, divulgada em 15 de outubro. O reconhecimento coroa uma trajetória que começou nos palcos e migrou para a fronteira tecnológica do campo. Mas o que une a música lírica à inovação agrícola?
Formada em Canto Lírico pela UFG aos 16 anos, Secco gravou seu primeiro disco pela Universal Music aos 14. Um problema vocal congênito exigiu cirurgia e a reeducação completa da voz — experiência que, segundo ela, ensinou a reconstruir rotas quando o plano original falha. A lição virou método de gestão.
Do palco para a fazenda: a virada de chave
Antes de fundar as próprias empresas, Secco passou quatro anos no negócio agropecuário da família. O período serviu de imersão nas dores reais do produtor: custos altos, baixa adoção tecnológica e lacuna entre ciência e prática. Em 2019, nasceu o Orchestra Innovation Center em Rio Verde (GO), primeira aceleradora de agtechs do estado.
O modelo aproxima startups — inclusive estrangeiras — de fazendas dispostas a testar soluções em condições reais. Três anos depois, a Orchestra Ventures aportou capital: um fundo inicial de R$ 6 milhões reunindo recursos da fundadora, quatro empresas e três produtores regionais.
Números que falam mais que discursos
As tecnologias apoiadas pelas duas frentes já cobrem aproximadamente 200 mil hectares de soja, milho, cana-de-açúcar e algodão, concentrados no sudoeste goiano. Dois resultados chamam atenção:
- Ganho de produtividade nas áreas monitoradas
- Redução média de 40% nos custos de aplicação de herbicidas via agricultura de precisão
A tese central: tecnologia só adere se couber no bolso do produtor. Sustentabilidade sem viabilidade econômica não escala.
Reconhecimento internacional antecipou a Forbes
Em setembro de 2025, Secco venceu a categoria tecnologia agrícola no Global Women in Agritech, em Antoing, Bélgica. Foi a única brasileira entre 23 finalistas. No evento, defendeu que investimento em inovação precisa sair do discurso e entrar no fluxo de caixa da propriedade.
A lista da Forbes, em sua segunda edição (a primeira foi em 2021), avalia influência, impacto e atuação em produção, pesquisa, gestão, tecnologia e liderança institucional. A publicação coincide com o Dia Internacional da Mulher Rural.
Formação híbrida como diferencial competitivo
Além do bacharelado em Música, Secco carrega MBA em Gestão Empresarial pela FGV e formação em Venture Capital pela UC Berkeley. A combinação — sensibilidade artística, rigor técnico e visão de investimento — explica a capacidade de traduzir linguagem de startup para linguagem de fazenda.
“Nem sempre os caminhos profissionais seguem o planejamento inicial”, escreveu em rede social ao relembrar a transição. A frase resume a tese que agora guia seus aportes: adaptabilidade é ativo.
O que observar nos próximos ciclos
A expansão do modelo Orchestra para além do sudoeste goiano será o termômetro. Se a redução de 40% em herbicidas se repetir em outras regiões e culturas, a tese de que precisão paga a conta ganha escala nacional. Outro ponto: a captação de fundos maiores para a Ventures — o tíquete de R$ 6 milhões é semente, não colheita. Investidores e produtores atentos ao próximo aporte saberão se o mercado valida a ponte que Secco construiu entre o conservatório e o pivô central.
