Economia

O segredo que ninguém conta: ‘Rico fica rico dormindo’, alerta fundador da Petz

Sergio Zimerman, fundador da Petz, em entrevista exclusiva sobre economia brasileira e reforma trabalhista
Sergio Zimerman critica juros altos e PEC da escala 6x1 em entrevista exclusiva.

Sergio Zimerman, fundador da Petz e presidente do conselho da Petz Cobasi, não mede palavras ao diagnosticar a economia brasileira: juros estratosféricos enriquecem o rentista sem esforço enquanto empurram o trabalhador para a informalidade. Em entrevista exclusiva, o empresário critica a aprovação da PEC que extingue a escala 6×1 às vésperas da eleição, aponta falhas na reforma tributária e defende que distribuir renda não é apenas ética, mas estratégia de negócios.

O efeito imediato da PEC da escala 6×1 no seu bolso

A promulgação da PEC 221/2019, na sexta-feira (16), extingue o regime de seis dias de trabalho por um de folga e reduz a jornada semanal de 44 para 40 horas. Zimerman classifica a votação — 75 a 1 no Senado — como um ato de “medo eleitoral”, não de planejamento.

Para o varejo, a conta é simples e dolorosa: a hora de trabalho fica cerca de 10% mais cara. Como as margens são apertadas, o repasse ao consumidor é inevitável.

  • Cenário real: Um tosador celetista custa X por hora. Dividindo a carga por 40 horas em vez de 44, o custo unitário sobe.
  • Consequência: O serviço encarece no balcão. O trabalhador mantém o salário nominal, mas perde poder de compra no supermercado e no lazer.

“Há um empobrecimento da população com esse tipo de medida”, resume. Ele admite que a rotatividade de 70% no varejo e o déficit de 15% de mão de obra são problemas reais, mas argumenta que a solução não cabe no modelo rígido do século XX.

Por que a discussão trabalhista parou no tempo

Zimerman aponta um abismo entre a CLT clássica — pensada para indústria com turno fixo — e a realidade de 2026: home office, comércio 24h, economia de aplicativos. “Existe um contingente enorme fora da CLT, sem proteção nenhuma, trabalhando 12 horas por dia, sete dias por semana”, observa.

Para ele, a PEC foi uma “oportunidade perdida”. Faltou um debate inclusivo que mesclasse proteção trabalhista com jornadas alternativas legais, salário-hora mínimo e liberdade para quem quer trabalhar mais. O resultado atual empurra gente para a “pejotização indevida” e a informalidade total.

Juros altos: o paraíso do rentista e o inferno do devedor

Este é o ponto onde Zimerman eleva o tom. Com a Selic nas alturas há anos, aplicar no Tesouro Direto virou “céu para uns”: dinheiro cai na conta todo mês sem risco, suor ou geração de emprego. Na ponta oposta, o “inferno para outros”: prestações impagáveis, bola de neve e nome sujo.

“Quer coisa pior? O rico fica mais rico dormindo. O pobre trabalha para o sistema financeiro.” A defesa dele é clara: o enriquecimento legítimo vem de risco, investimento produtivo, abertura de fábricas e lojas. O atual modelo, diz, travou a roda da economia.

Reforma tributária e Split Payment: o que ficou faltando

A reforma aprovada em 2023 errou o alvo, na visão do empresário. “Não mexeu na essência: tributar menos o consumo — que pune o pobre — e mais a renda e o patrimônio dos ricos.”

Sobre o split payment (recolhimento automático do imposto na hora da venda), proposto para acabar na gestão Flávio Bolsonaro, Zimerman vê meio-termo: recolher 20% na fonte para não estrangular o fluxo de caixa das empresas, mantendo o sinalizador contra a sonegação. “O Brasil perde mais de R$ 500 bilhões por ano com pirataria, contrabando e sonegação. Se todos pagam, a alíquota cai para todos.”

Eleições 2026: “Não quero que o avião caia”

Zimerman não vota no segundo turno (estará nos EUA), mas torce pelo sucesso de quem vencer — Lula ou Flávio Bolsonaro. A prioridade única: sinalizar compromisso fiscal inegociável. “Não gastar mais do que arrecada.”

Ele elogia o Pé de Meia (poupança para estudantes de baixa renda) como “transformacional” e concorda com a redução da maioridade penal para 14 anos em crimes hediondos (“a lei que protege o menor, na prática, o entrega ao crime organizado”). Discorda, porém, de cotas obrigatórias para mulheres em conselhos: “Diversidade e competência devem emergir naturalmente”.

Política externa e a fusão que deu certo

O empresário critica duramente o fim da neutralidade brasileira no conflito Israel-Hamas. “Quando um grupo terrorista elogia o presidente, algo está muito errado.” Defende a existência dos dois Estados e cita a própria fusão Petz-Cobasi — unindo família judaica (Zimerman) e libanesa (Nassar) — como prova viva da convivência harmoniosa possível. “Capturamos sinergias no ritmo previsto. Será o melhor caso de fusão do varejo brasileiro.”

O que observar daqui para frente

O fechamento do ciclo eleitoral abre a janela para três movimentos decisivos que ditam o ritmo dos negócios nos próximos trimestres:

  • Sinalização fiscal: O primeiro orçamento do novo governo dirá se a “austeridade” sai do discurso para a planilha. Juros longos reagirão na hora.
  • Regulamentação da PEC 221: A transição da escala 6×1 para 5×2 e 40h testará a capacidade do varejo de absorver custos sem demissões em massa ou repasse total ao IPCA.
  • Formalização do gig: Qualquer proposta que traga proteção previdenciária para motoristas e entregadores de apps — sem matar a flexibilidade — pode reequilibrar a concorrência por mão de obra no varejo formal.

Para o investidor e o gestor, a lição de Zimerman é pragmática: empresas crescem onde a classe média consome. Concentração de renda estanca o PIB; distribuição faz a roda girar. Acompanhar se a política econômica 2027-2030 entende essa equação — ou insiste no “remendo” — definirá onde alocar capital e como precificar risco Brasil.