Economia

Navios a etanol: o mercado de 20 bi litros que ninguém vê…

Navio cargueiro no mar com tanque de etanol e ícone de 20 bilhões de litros
Brasil estuda mistura de etanol em navios com potencial de 20 bi litros/ano

O Brasil começou a desenhar as regras para colocar etanol no tanque de navios gigantes, e o número assusta: até 20 bilhões de litros anuais podem ser demandados em poucos anos. Mas a regulamentação ainda é um rascunho e a resistência internacional é real. O que falta para essa conta fechar?

O pontapé inicial em Brasília

O Ministério de Minas e Energia (MME) reuniu produtores e governo no início de outubro para iniciar a regulamentação da mistura de etanol ao óleo bunker — o combustível fóssil padrão da marinha mercante. A proposta inicial prevê envio de um projeto de lei ao Congresso ainda em 2026, com metas obrigatórias alinhadas às discussões da Organização Marítima Internacional (IMO).

Renato Cunha, vice-presidente da Bioenergia Brasil, colocou a régua na mesa: se a mistura for fixada em 10%, o mercado potencial salta para cerca de 50 bilhões de litros. O percentual, porém, segue em aberto.

A frota que já nasce preparada

Enquanto a lei não sai, os armadores adiantam o jogo. Já existem 336 encomendas de navios projetados para operar com metanol ou etanol, com entrega prevista até 2030. A adaptação tecnológica é simples: basta trocar bicos injetores e atualizar o software de bordo.

Essa frota nova representa, sozinha, uma demanda estimada entre 15 e 20 bilhões de litros por ano quando estiver plenamente operacional.

Testes reais nos maiores portos do mundo

A transição não é teórica. Grandes players já validam a tecnologia na prática:

  • Maersk: testou 100% etanol em navio bicombustível no Porto de Roterdã.
  • CMA CGM: realizou abastecimento com etanol no Porto de Santos.
  • Vale: começou a encomendar embarcações dedicadas exclusivamente ao biocombustível.

O entrave geopolítico e o voto de dezembro

Mas o caminho tem pedras. Grandes produtores de petróleo, com destaque para os Estados Unidos, pressionam contra a substituição do bunker. A velocidade da mudança depende agora de uma medida chave que a IMO deve votar em dezembro.

Se aprovada, a regra internacional cria o piso regulatório que o Brasil precisa para transformar o potencial em contratos assinados.

O que observar daqui para frente

Três variáveis ditam o ritmo nos próximos meses: a definição do percentual de mistura no projeto de lei brasileiro, o resultado da votação na IMO e a capacidade da indústria sucroenergética de escalar logística de abastecimento portuário. Quem monitorar esses três pilares terá a régua exata do tamanho dessa oportunidade.