Economia

Aena assume Galeão e revela plano agressivo: 18 novos destinos e R$ 1 bi até 2027

Aeroporto Galeão Tom Jobim com avião decolando, logotipo Aena em destaque, Rio de Janeiro
Aena assume concessão do Galeão e anuncia 18 novos destinos internacionais até 2027.

A concessionária espanhola Aena assumiu oficialmente o Aeroporto Internacional Tom Jobim, o Galeão, e já colocou na mesa uma meta ousada: adicionar mais de 50 frequências semanais e reativar rotas para 18 destinos internacionais até janeiro de 2027. O contrato, válido até 2039, transforma o terminal carioca na peça central de uma disputa silenciosa pelo turismo de longo curso no Brasil.

O anúncio foi feito em coletiva nesta terça-feira (13), com a presença do ministro de Portos e Aeroportos, Tomé Franca. Mas o que não foi dito em voz alta pesa tanto quanto os números: a viabilidade do plano depende de uma variável que está fora do controle da Aena — o futuro do Santos Dumont.

O mapa da expansão: números que impressionam

A estratégia da Aena desenha dois movimentos simultâneos. Primeiro, o adensamento de rotas já existentes. Segundo, a reabertura de mercados que o Galeão perdeu nos últimos anos.

  • Mais frequências (até jan/2027): Paris, Miami, Frankfurt, Lisboa, Porto, Santiago, Córdoba, Atlanta e Panamá — somando 50+ voos semanais extras.
  • Novas ou retomadas rotas: Nova York, Dallas, Toronto, Montreal, Assunção, Salta, Mendoza, Rosario e Lima.

Juntas, as duas frentes cobrem América do Norte, Europa e Cone Sul. É a malha mais ambiciosa anunciada para o terminal desde a concessão original, em 2014.

Infraestrutura ociosa: o ativo escondido

O Galeão fechou 2025 com 17,5 milhões de passageiros e deve fechar 2026 próximo de 19 milhões. Parece muito, mas a capacidade instalada é de 37 milhões por ano. Metade do aeroporto está vazia.

Essa ociosidade é o trunfo da Aena. Não faltam pistas, pátios ou terminais — falta demanda. O ministro Franca resumiu: “O Brasil precisa de mais grandes aeroportos vocacionados ao turismo internacional. Além de Guarulhos, essa é a vocação do Galeão”.

A concessionária não revelou quanto investirá diretamente nos terminais. O que se sabe é que coordena R$ 1 bilhão em aportes de parceiros nos próximos três anos:

  • Hotel com 232 quartos no edifício entre os dois terminais;
  • Novo galpão logístico na área industrial;
  • Hangar de manutenção da Gol.

Reformas em elevadores e esteiras de bagagem também estão no radar, mas sem valores divulgados.

OTerminal 1 e a incógnita da demanda

Fechado há dez anos, o Terminal 1 só será reavaliado se houver “demanda de novos voos e aumento do número de passageiros”, segundo a Aena. A postura é conservadora: não se gasta capital reativando estrutura sem fluxo garantido.

Mas há um gatilho externo que pode forçar a mão — e ele fica a poucos quilômetros dali.

Santos Dumont: a variável que muda tudo

Desde 2023, o Santos Dumont opera com teto de 6,5 milhões de passageiros/ano. A restrição foi criada justamente para desviar demanda para o Galeão. O acordo prevê:

  • 2027: teto sobe para 8,5 milhões;
  • 2028: teto sobe para 9,5 milhões;
  • 2029: fim de qualquer restrição.

Se o governo mantiver o cronograma, o Galeão ganha espaço para crescer até 2029. Se houver prorrogação dos limites — pressões políticas e do trade turístico do Rio não faltam —, o contrato da Aena prevê reequilíbrio econômico-financeiro em desfavor da concessionária.

Ou seja: a Aena assume o risco de demanda, mas o poder público segura a chave da torneira.

O que observar daqui para frente

Três marcos definem se o plano sai do papel ou vira mais um capítulo de promessas não cumpridas na aviação brasileira:

  • Janeiro de 2027: as 50+ frequências e 9 novas rotas precisam estar operando. Companhias aéreas não criam voos por decreto — precisam de viabilidade comercial.
  • Decisão sobre Santos Dumont (2027-2029): qualquer alteração no cronograma de abertura aciona cláusula de reequilíbrio contratual. Investidores vão monitorar cada sinal do Ministério.
  • Taxa de ocupação real: sair de 19 milhões para algo próximo de 30 milhões exige não só voos, mas taxa de ocupação sustentável nas aeronaves. O Brasil tem histórico de “voos fantasmas” inaugurados e cancelados em 12 meses.

Para o empresário ou investidor que acompanha infraestrutura de transportes, o Galeão virou um caso de estudo em tempo real: uma concessionária experiente (a Aena opera 46 aeroportos na Espanha e tem ativos no México, Colômbia e Reino Unido) assumindo um ativo subutilizado num mercado onde a variável política pesa mais que a econômica. O contrato até 2039 dá fôlego. A pergunta é se o ambiente regulatório deixará a tese de investimento se provar.