A inteligência artificial está aumentando a inflação em vez de reduzi-la, aumentando a barreira para cortes nas taxas de juros americanas. A afirmação é de Janet Yellen, ex-presidente do Fed (Reserva Federal dos EUA) e ex-secretária do Tesouro. Como esse cenário afeta o fluxo de capital global e o custo do dinheiro no curto prazo?
O efeito cascata dos investimentos em IA
Durante o festival Expert XP, Yellen destacou que o forte ciclo de investimentos em tecnologia está aquecendo a demanda. A corrida exige volumes massivos de semicondutores e energia elétrica, pressionando os preços desses insumos estratégicos.
Os custos maiores são repassados aos eletrônicos e, consequentemente, à economia de forma geral. Na prática, o insumo tecnológico que prometeria otimizar operações ainda funciona como um vetor de pressão altista.
A ex-presidente do banco central americano avalia que esse conjunto de fatores impede qualquer movimento de afrouxamento monetário neste momento.
Por que a produtividade ainda não salva o cenário
Apesar do otimismo corporativo, Yellen ressalta que não há evidências concretas de melhora na produtividade macroeconômica gerada pela IA até agora. Os efeitos práticos existem, mas estão confinados a setores isolados.
A economista projeta que a tecnologia pode gerar ganhos robustos nos próximos anos, em um paralelo direto com a difusão da internet no final dos anos 1990. Por enquanto, a conta estrutural da inovação pesa no curto prazo.
Mas a tecnologia não é o único fator travando a queda dos juros. O mercado está sendo acometido por choques externos severos.
Choque no Oriente Médio e o barril a US$ 100
Há poucas semanas, o mercado precificava um cenário mais brando de inflação nos EUA com base na expectativa de um cessar-fogo no Oriente Médio e na queda do petróleo. O quadro se inverteu abruptamente.
O barril de petróleo ultrapassou US$ 100 nesta quinta-feira (23), registrando alta superior a 7%. O movimento reflete a intensificação das tensões entre EUA e Irã, somada à entrada dos houthis no conflito.
- Petróleo: Superou a marca de US$ 100 (+7% em um dia).
- Risco logístico: Ameaça ao escoamento da produção energética regional.
- Prazo de pressão: Inflação deve permanecer em patamar alto por pelo menos mais 12 meses.
Yellen classifica a alta do petróleo como um novo choque de oferta. Para investidores, isso significa um horizonte estendido de custos elevados. Contudo, a postura do banco central diante disso pode surpreender.
Alerta para nova alta de juros nos EUA
Embora o Fed deva preferir esperar a dissipação dos choques antes de apertar ainda mais a política monetária, Yellen admitiu preocupação com o risco de aceleração inflacionária. A tendência imediata é de manutenção das taxas inalteradas.
Contudo, a ex-presidente sinalizou que a instituição está “muito, muito preparada” para elevar os juros caso o embate entre EUA e Irã continue ou se agrave. O mercado corporativo precisa se preparar para um piso de juros elevado por mais tempo.
A transição de comando no Fed também entra no radar dos mercados financeiros.
Reformulação do Fed sob nova liderança
O atual presidente do Fed, Kevin Warsh, instituiu cinco forças-tarefa para revisar a atuação do banco central. Uma delas será comandada pelo ex-presidente do Banco Central do Brasil, Armínio Fraga.
Para Yellen, a iniciativa reflete o natural desejo de um novo gestor de reavaliar processos, especialmente em um perfil histórico de críticas à condução da política monetária.
A economista afirma que revisões externas trazem contribuições pertinentes, embora o Fed já possua rotinas internas contínuas de avaliação.
O que observar daqui para frente
A combinação entre choque de oferta energético e investimento intensivo em insumos tecnológicos mantém a inflação americana resiliente. Para empresários e investidores, a implicação é clara: o custo de capital deve continuar alto nos próximos meses.
O sinal de alerta máximo fica para o desenrolar do conflito no Oriente Médio. Qualquer escalada militar relevante pode ser o gatilho para o Fed abandonar a pausa e iniciar um novo ciclo de aperto monetário.
