Economia

R$ 6 bi em impostos: como a Havan cresce pagando mais tributos que lucro

Fachada de loja Havan com réplica da Casa Branca e Estátua da Liberdade, símbolo da expansão da varejista
Havan completa 40 anos expandindo enquanto paga R$ 6 bi em impostos, mais que seu lucro líquido

A Havan completa 40 anos projetando faturamento de R$ 22 bilhões, mas o número que assusta é outro: a rede deve recolher R$ 6 bilhões em tributos apenas em 2026, valor superior ao próprio lucro líquido. Enquanto concorrentes fecham centenas de lojas e pedem recuperação judicial, a varejista de Luciano Hang abre 15 novas unidades este ano. Como uma empresa expande pagando mais impostos do que ganha?

A conta que não fecha: imposto supera lucro e fornecedores

Em 2024, o recolhimento foi de R$ 4 bilhões. No ano passado, saltou para R$ 5 bilhões. A projeção atual coloca a carga tributária em cerca de 30% do faturamento bruto.

Na prática, o Estado tornou-se o maior “sócio” do negócio. O montante destinado a impostos ultrapassa o custo com fornecedores e o resultado líquido da operação. Para um varejo de departamentos que opera com margem líquida entre 9% e 10%, cada ponto percentual de alíquota representa a diferença entre lucro e prejuízo.

Com a reforma tributária em fase de testes desde agosto — exigindo notas fiscais com alíquotas-teste de IBS e CBS —, o setor projeta um IVA brasileiro entre 26,5% e 28%. A média da OCDE é 19%; a da União Europeia, 21%.

22 anos para um alvará: a burocracia que travas a expansão

O entrave não é apenas financeiro. Hang relata que uma única unidade levou 22 anos para reunir todas as licenças necessárias. Em Matinhos (PR), um terreno de 30 mil m² destinado a uma megaloja com cinema e praça de alimentação está parado há quatro anos, travado por órgãos ambientais e Ministério Público.

Em Joinville, três projetos não saíram do papel. Em Natal, a inauguração foi embargada pelo Corpo de Bombeiros na véspera da abertura, em setembro de 2022 — movimento que o empresário atribuiu a perseguição política. A capital paulista, maior mercado consumidor do país, segue sem nenhuma loja Havan devido à burocracia municipal.

  • 196 unidades ativas em 23 estados.
  • Meta: 200 megalojas até dezembro, com presença em todos os 27 estados.
  • Investimento 2026: R$ 1,2 bilhão em expansão.

Remédio amargo: isenção de US$ 50 cria concorrência desleal

Em maio, a MP 1.357 zerou o Imposto de Importação para compras internacionais de até US$ 50 por pessoa física. Hang reagiu: segundo seus cálculos, a carga efetiva sobre a operação nacional pode chegar a 120% quando somados todos os tributos diretos e indiretos.

A assimetria obriga o varejista nacional a competir com produto estrangeiro isento, enquanto carrega o peso da folha, logística interna e conformidade regulatória. “Se o imposto é zero para o estrangeiro, queremos imposto zero para o brasileiro também”, questionou o fundador.

Na contramão da UTI do varejo: margens altas e 200 lojas no radar

O cenário setorial é brutal. A Casas Bahia negocia dívida de R$ 17,3 bilhões e fechou 298 lojas. Marisa, Renner e Riachuelo reduziram projeções. Pedidos de recuperação judicial bateram recorde.

Relatório do Banco Safra, porém, aponta que a Havan mantém margens acima da média. Analistas creditam o desempenho ao mix de produtos — que vai de eletro a cama, mesa e banho — e ao modelo de megaloja, que dilui custos fixos por metro quadrado.

São 22 mil colaboradores hoje; a meta é fechar o ano com 25 mil. A empresa tem cerca de 20 terrenos já comprados para futuras unidades.

Sucessão familiar e a meta das 300 unidades: o que vem por aí

Aos 63 anos, Hang evita detalhar o plano sucessório publicamente, mas dois dos três filhos já atuam na operação. O capital permanece fechado e familiar, sem intenção de internacionalização.

O foco imediato é o Nordeste e o Norte, regiões historicamente sub-representadas no mapa da rede. A estratégia mira cidades médias e regionais, onde a concorrência de grandes redes é menor e a capilaridade logística da Havan brilha.

O que observar daqui para frente

Três variáveis definirão se o modelo segue viável: a alíquota final do IVA dual (IBS/CBS) após o período de transição, a manutenção ou revogação da isenção de importação até US$ 50 e a velocidade do licenciamento ambiental nas novas praças. Se a carga efetiva se consolidar acima de 26% sem contrapartida na desoneração da folha ou no crédito tributário, até operações eficientes como a da Havan terão de escolher entre expandir menos ou repassar custo ao consumidor. Para o investidor, o termômetro está na execução do Capex de R$ 1,2 bilhão: se os desembolsos migrarem de abertura de lojas para pagamento de tributos diferidos, o sinal de alerta acende.