Economia

Dólar atinge maior nível em 18 meses: petróleo, Fed e o que vem depois

Gráfico do índice DXY mostrando alta histórica do dólar para 102,58 pontos
Dólar atinge maior nível em 18 meses impulsionado por tensões geopolíticas e juros altos nos EUA

O índice do dólar (DXY) fechou a segunda-feira em 102,58, o patamar mais alto desde abril de 2024, impulsionado por uma combinação de medo geopolítico e expectativas de juros americanos mais altos por mais tempo. A alta de 0,37% no dia mascara um movimento muito mais forte nas últimas semanas. A pergunta que fica: trata-se de um pico passageiro ou o início de uma nova tendência?

O gatilho imediato: Oriente Médio e o petróleo

Os ataques dos houthis iemenitas contra a Arábia Saudita e dois petroleiros no fim de semana reacenderam o prêmio de risco geopolítico. O Brent saltou 2,3%, para US$ 107,17 o barril, aproximando-se da máxima de duas semanas.

O anúncio de um cessar-fogo no setor energético entre Ucrânia e Rússia, feito pelo ex-presidente Trump no domingo, durou poucas horas. Kiev acusou Moscou de violar o acordo na madrugada de segunda, mantendo a incerteza sobre a oferta global.

Desde o início do conflito envolvendo EUA e Israel contra o Irã, o petróleo acumula alta de quase 45%. Cada dólar a mais no barril pressiona a inflação global e, por tabela, fortalece a moeda americana.

O fator Fed: inflação “generalizada” e juros restritivos

Beth Hammack, presidente do Fed de Cleveland, defendeu nesta segunda uma postura “relativamente rápida” de aperto monetário. Para ela, a inflação está mais difusa do que os números principais sugerem.

O mercado precifica 78% de chance de manutenção dos juros na reunião deste mês, contra 51% há um mês, segundo o CME FedWatch. O Fed subiu a taxa no mês passado pela primeira vez desde 2023.

O relatório de inflação ao consumidor (CPI) de quarta-feira será o divisor de águas. Estrategistas como Marc Chandler, da Bannockburn, esperam números “em alta”, o que elevaria a barreira para qualquer corte antecipado.

Posicionamento recorde: apostas no dólar somam US$ 36 bi

Dados da semana encerrada em 7 de outubro mostram que fundos e grandes investidores aumentaram a posição comprada no dólar para cerca de US$ 36 bilhões. Três semanas antes, o saldo era de apenas US$ 8,4 bilhões.

O movimento ocorreu em grande parte às custas do euro, que caiu 0,4% para US$ 1,1156 — menor nível em 17 meses. A moeda europeia acumula cinco semanas consecutivas de perdas.

  • DXY: 102,58 (+0,37% no dia, máxima em 18 meses)
  • Brent: US$ 107,17 (+2,3%, perto da máxima de 2 semanas)
  • Posição líquida comprada no dólar: US$ 36 bi (era US$ 8,4 bi há 3 semanas)
  • Euro/Dólar: 1,1156 (mínima desde maio de 2023)
  • Probabilidade de manutenção dos juros pelo Fed: 78%

O contraponto: ceticismo sobre a sustentabilidade da alta

Joel Kruger, estrategista do LMAX Group em Londres, alerta: “Não estamos convencidos de que essa onda de aversão ao risco se traduzirá em valorização sustentada do dólar”. Ele cita três pilares:

  • Dados econômicos americanos em desaceleração
  • Pressões inflacionárias em moderação gradual
  • Grande parte das altas de juros esperadas já está precificada

Para Kruger, “vê-se espaço limitado para alta adicional do dólar” a partir dos níveis atuais.

Crise fiscal francesa pressiona o euro e abre espaço para o dólar

O spread entre os títulos franceses de 10 anos e os alemães (bunds) negociou a 140 pontos-base nesta segunda, após tocar 160 pb na semana passada — maior nível desde 2012. O mercado precifica incerteza sobre a saúde fiscal da França antes das presidenciais de 2027.

Dan Tobon, chefe de estratégia cambial do G10 no Citi, resume: “Qual a razão para comprar títulos europeus ou o euro agora? É difícil encontrar uma, e por isso continuamos à deriva.” A libra esterlina também recuou 0,2%, para US$ 1,3203.

Enquanto isso, o dólar subiu 0,2% contra o iene, para 158,66, mantendo a pressão sobre o Banco do Japão.

O que observar daqui para frente

Três variáveis ditarão o ritmo nas próximas sessões: o CPI americano de quarta-feira, a evolução dos conflitos no Golfo e a capacidade da zona do euro de apresentar um plano fiscal crível para a França. Se a inflação dos EUA vier acima do consenso, a probabilidade de manutenção dos juros pode subir acima de 85%, reforçando o dólar. Por outro lado, qualquer desescalada no Oriente Médio ou sinal de corte de gastos crível em Paris devolveria fôlego ao euro. Para o investidor brasileiro, o câmbio acima de R$ 5,60 (referência do DXY a 102,58) eleva o custo de importação e pressiona o BC a manter a Selic restritiva por mais tempo. Acompanhe o leilão de linha do Banco Central e o fluxo de exportadores — são os termômetros de curto prazo mais confiáveis.