A Coreia do Sul desenvolveu uma roda que encolhe 23 centímetros para caber no foguete e dobra de diâmetro ao tocar o solo lunar. A tecnologia, inspirada em pontes autossustentáveis e na arte do origami, é a aposta do país para mapear túneis vulcânicos onde futuras bases humanas poderão se abrigar.
O segredo está na geometria: tiras de aço de alto carbono se entrelaçam sem parafusos nem molas, sustentando-se apenas por atrito e tensão. O resultado é um componente leve, sem ar, impossível de furar e capaz de suportar variações térmicas de 260 graus Celsius.
Por que a NASA e a China observam esse movimento
Explorar a superfície plana da Lua já é difícil; descer paredes íngremes de tubos de lava exige tração e adaptabilidade que rodas rígidas não oferecem. A roda do KAIST (Instituto Avançado de Ciência e Tecnologia da Coreia) muda de forma em tempo real, ajustando o perfil para escalar obstáculos ou atravessar regolito fofo.
Testes em cavernas vulcânicas na Ilha de Jeju e em câmaras de vácuo com simulador de solo lunar validaram a resistência mecânica. O próximo salto não é mecânico, mas cognitivo.
O cérebro artificial que decide o melhor caminho
O mestrando Yiseub Yun treina uma IA por reforço para que o rover “aprenda” a andar sozinho. O algoritmo testa milhares de combinações de passos e configurações de rodas em simulação antes de o hardware real se mover.
- Objetivo: definir autonomamente quantas rodas o robô precisa e qual geometria ideal para cada trecho.
- Método: tentativa e erro virtual, eliminando falhas catastróficas antes do pouso.
- Vantagem: dispensa controle remoto da Terra, onde o atraso de sinal chega a 2,5 segundos.
Essa autonomia reduz custos de operação e aumenta a janela de exploração útil — fator crítico para investidores que calculam retorno por hora de missão.
Orçamento recorde sinaliza mudança de patamar
O governo sul-coreano pediu 1,65 trilhão de won (US$ 1,2 bilhão) para o espaço em 2027, alta de 47% sobre 2026. A recém-criada KASA (Administração Aeroespacial da Coreia) quer colocar o país no top 5 das potências orbitais.
O projeto da roda origami é um dos vários financiados pela agência. A estratégia é clara: transformar pesquisa universitária em ativos industriais exportáveis, de satélites a robótica de serviço em órbita.
O que observar nos próximos 18 meses
A meta é integrar o protótipo ao módulo de pouso coreano previsto para 2030. Antes disso, três marcos técnicos ditam o ritmo:
- Validação do rover completo em ambiente térmico-vácuo (fim de 2025).
- Demonstração de navegação autônoma em terreno análogo a tubo de lava (2026).
- Qualificação de voo do mecanismo de desdobramento sob vibração de lançamento (2027).
Se a Coreia cumprir o cronograma, a tecnologia de rodas reconfiguráveis deixa de ser experimento de laboratório para virar padrão em missões de alto risco — abrindo caminho para logística lunar comercial e, quem sabe, a primeira mina de gelo operacional fora da Terra.
