A frota de patinetes elétricos compartilhados saltou de 4 mil para 8 mil unidades nas ruas de São Paulo em menos de dois anos, mas o crescimento acelerado veio acompanhado de uma dura repressão: mais de 2,5 mil contas foram suspensas por mau uso apenas na capital. O que leva tanta gente a perder o acesso justo quando o serviço vira opção real de transporte?
Os números revelam um cenário de expansão agressiva. A Whoosh triplicou a operação, indo de 1 mil para 3 mil veículos, enquanto a Jet elevou a frota de 3 mil para 5 mil. Juntas, as empresas também expandiram a infraestrutura: a Jet mais que dobrou os pontos de estacionamento, chegando a 1,3 mil vagas, e a Whoosh oferece outros 420 locais estrategicamente posicionados perto de estações de metrô e terminais.
O perfil das infrações que derrubam contas
O bloqueio não é automático nem aleatório. Segundo as operadoras, as suspensões — que somam 17 mil em todo o Brasil, cerca de 1% da base nacional — miram condutas que ferem a Resolução 996 do Contran e colocam vidas em risco. As três principais causas são:
- Transporte de passageiro (duas pessoas no mesmo equipamento);
- Empréstimo da conta para menores de idade;
- Estacionamento fora das zonas geolocalizadas permitidas.
“Os bloqueios são uma das medidas quando identificamos comportamentos que descumprem as regras, mas a segurança começa antes: monitoramento, canais de denúncia e educação”, explica Cadu Souza, diretor de operações da Whoosh. Usuários punidos podem recorrer ao suporte para revisão do caso.
O vácuo regulatório que durou sete anos
Os patinetes chegaram à cidade há sete anos, mas a prefeitura só iniciou a corrida regulatória em 2019. A pandemia freou o serviço, e o debate só voltou com força após a norma federal de 2023, que delegou aos municípios a fiscalização. Para Paulo Guimarães, CEO do Observatório Nacional de Segurança Viária (ONSV), o cenário ainda é desigual: “A etapa educativa é importante, mas precisa ser seguida de fiscalização. Em segurança viária, não podemos esperar acidentes graves ditarem o ritmo”.
Em São Paulo, um grupo de trabalho foi formado em 2023. Após idas e vindas judiciais, o aluguel retornou em dezembro de 2024. Novas regras municipais foram definidas em agosto, com fiscalização prevista para começar em 12 de outubro, mas a CET admite que os parâmetros de autuação ainda estão “em fase de planejamento”. Até lá, a atuação segue educativa: placas, banners e painéis de velocidade em vias como a Faria Lima.
Micro-mobilidade real: dados de quem usa para trabalhar
Longe de ser apenas lazer, os dados de uso mostram que o patinete virou “última milha” para o trabalhador. O padrão identificado pelas duas plataformas é consistente:
- Deslocamento médio de 2,5 km;
- Alto volume nos dias úteis;
- Picos de demanda no início e no fim do expediente comercial.
Isso explica a estratégia das empresas de concentrar vagas próximo a hubs de transporte público. A integração modal deixa de ser discurso e vira métrica operacional.
O que observar nos próximos meses
Ambas as operadoras sinalizam planos de expansão contínua de frota e área de cobertura. O ponto de atenção, porém, está na transição da fase educativa para a punitiva pela CET, a partir de outubro. A eficácia da fiscalização municipal — e a capacidade das empresas de manter a taxa de bloqueios baixa sem estrangular a demanda — vai ditar se o modelo se consolida como política pública de mobilidade ou se vira mais um caso de “crescimento desordenado” nas calçadas paulistanas.
