Sergio Zimerman, fundador da Petz e presidente do conselho do grupo Petz Cobasi, estreia como colunista mensal do C-Level, plataforma de negócios da Folha. A primeira coluna vai ao ar nesta sexta-feira (9) no site e no sábado (10) na edição impressa.
Com 42 anos de comércio nas costas — da falência de um atacadista ao IPO de 2020 e à fusão com a Cobasi aprovada em dezembro de 2025 —, o empresário de 60 anos traz um diagnóstico duro sobre o varejo atual. E ele não poupa os três vilões que, na visão dele, estão sufocando o setor.
Juros, consignado e bets: a tríplice pressão
Zimerman aponta três forças que considera estruturais e pouco discutidas com a profundidade necessária. A primeira é a taxa de juros elevada, que segundo ele “faz com que o rico fique muito mais rico e que o pobre fique muito mais pobre”. O argumento: o custo do capital trava investimentos produtivos e transfere renda para quem já tem capital financeiro.
A segunda é o crédito consignado sem educação financeira associada. Trabalhadores endividados além da conta recorrem à informalidade para sobreviver, quebrando a cadeia formal de consumo. A terceira, as apostas online, merece tratamento de saúde pública. O dinheiro drenado para bets deixa de circular em bens e serviços — um vazamento real na economia real.
Assimetria tributária e a onda de RJs
Outro ponto crítico: a tributação sobre produtos nacionais versus importados. Zimerman classifica a discrepância como um fator que desnivela o jogo e contribui para o que chama de “onda de recuperações judiciais sem precedentes no varejo”. O número de pedidos de RJ no setor tem subido trimestre a trimestre, e a assimetria fiscal é citada como acelerador.
Para ele, a discussão tributária não pode ficar restrita ao universo empresarial. “O pagador de imposto é o cidadão”, resume. Os tributos sobre consumo são repassados aos preços e afetam diretamente o bolso de quem compra.
Da palhaçaria ao conselho de administração
A trajetória de Zimerman foge do script corporativo padrão. Aos 18 anos, ganhava a vida como animador de festas — o palhaço Salsicha. Depois veio um buffet infantil, uma rede atacadista, a falência e o recomeço com a Pet Center Marginal em 2002. A faculdade de administração na Unip veio aos 34 anos, seguida de MBA em varejo na FIA-USP e cursos na Europa e nos EUA.
Hoje, divide o tempo entre o conselho do grupo nascido da fusão Petz-Cobasi e um sítio em Atibaia onde vivem cinco cachorros: Sasha (são-bernardo), Brigitte (bernese), Frog (yorkshire) e os vira-latas Grude e Pingo.
Independência declarada e pautas futuras
Zimerman avisa: não escreverá para agradar. “Como eu não sou candidato a nada, não quero fazer colunas que sejam populares no sentido de agradar às pessoas. Eu quero ter a honestidade intelectual de produzir colunas que levem as pessoas a refletir.”
Entre os temas prometidos estão políticas públicas, funcionamento das instituições e o sistema tributário — sempre com recorte sobre como decisões macro afetam o dia a dia de quem empreende e de quem consome. Políticos específicos ficarão de fora; o foco são as estruturas.
O que observar daqui para frente
A estreia de Zimerman no C-Level sinaliza um movimento: empresários com pele no jogo assumindo espaço no debate público sem mediação de assessorias. Suas primeiras colunas devem testar se o diagnóstico sobre juros, consignado e bets encontra ressonância em dados de varejo dos próximos trimestres. Acompanhar a evolução das recuperações judiciais no setor — e se a assimetria tributária entra na pauta da reforma em discussão no Congresso — será o termômetro real se o alerta procede ou exagera.
