A Firmus, operadora de data centers australiana com aporte direto da Nvidia, cancelou na sexta-feira (9) sua oferta pública inicial que mirava US$ 5 bilhões e uma avaliação de US$ 30 bilhões. A retirada expõe uma fratura crescente entre o entusiasmo do setor de infraestrutura de IA e a disposição real do mercado em pagar por promessas futuras.
O conselho da empresa alegou “volatilidade recente do mercado” para justificar a decisão. Nos bastidores, a dificuldade em fechar o livro de ofertas no preço desejado contou outra versão: investidores institucionais recusaram-se a embarcar na tese de valuation.
O abismo entre contrato assinado e receita realizada
O caso resume-se a um descompasso brutal. A Firmus tem contratos firmados para mais de 900 megawatts de capacidade. Em operação efetiva, hoje, estão apenas 46 megawatts divididos entre duas instalações — uma na Austrália, outra em Singapura.
Cinco novos data centers estão em construção, com previsão de entrada em operação nos próximos dois anos. Até lá, a companhia consome caixa sem gerar retorno proporcional ao múltiplo pretendido.
- Capacidade contratada: 900+ MW
- Capacidade operacional: 46 MW
- Data centers em construção: 5
- Valuation no IPO: US$ 30 bilhões
- Valuation na rodada privada (ago/2024): US$ 10,5 bilhões
Da mineração de bitcoin às “fábricas de IA”
A trajetória da Firmus começou em 2019 como mineradora de criptomoedas. A guinada para data centers de alta densidade — batizados internamente de “fábricas de IA” — coincidiu com a explosão da demanda por GPUs da Nvidia, que entrou no captable em agosto passado ao lado de Jane Street e fundos geridos pela Blackstone.
O salto de valuation entre a rodada privada (US$ 10,5 bi) e o IPO pretendido (US$ 30 bi) em poucos meses acendeu o sinal de alerta. Para John Pearce, CIO do fundo de pensão UniSuper: “Acreditamos que a Firmus tem uma história convincente; o que não é convincente é sua avaliação”.
O custo de oportunidade mudou o jogo
O pano de fundo macroeconômico não ajuda. Com juros elevados, títulos públicos oferecem retorno competitivo sem risco de execução. Jason Lui, chefe de estratégia de ações para Ásia-Pacífico do BNP Paribas, resume: “Os investidores exigirão mais evidências sobre as perspectivas de crescimento. O custo de oportunidade é maior”.
Empresas de infraestrutura de IA dependem de dívida pesada para expandir. Cada ponto percentual a mais na taxa de desconto reduz drasticamente o valor presente de fluxos de caixa que só virão daqui a anos.
Plano B: captação privada e tempo
Segundo fonte próxima à operação, a Firmus buscará agora uma rodada privada. A vantagem: negocia termos com menos investidores, evita a marcação a mercado diária e ganha fôlego para entregar os 900 MW contratados.
O risco permanece. Se a demanda por compute de IA desacelerar — ou se modelos mais eficientes reduzirem a necessidade de brute force —, os contratos atuais podem não se converterem em receita recorrente no prazo esperado.
O que observar nos próximos trimestres
Três variáveis ditarão se a Firmus volta ao mercado público ou vira caso de estudo sobre bolhas de infraestrutura: (1) velocidade de energização dos cinco data centers em obra; (2) taxa de ocupação real versus contratada; (3) necessidade de novas rodadas de equity ou dívida a cada 12-18 meses. Investidores sofisticados já colocaram a empresa na lista de “esperar para ver”. O mercado público, por ora, disse não.
