Masayoshi Son está batendo às portas dos fundos soberanos do Golfo Pérsico com um pedido audacioso: até US$ 100 bilhões para alimentar sua próxima grande jogada em inteligência artificial. O fundador do SoftBank quer capital fresco semanas depois de a OpenAI — sua aposta de US$ 65 bilhões — adiar a IPO mais esperada do Vale do Silício.
A movimentação expõe a urgência de Son em manter o fluxo de caixa para uma estratégia que já o levou ao topo do mundo tech e, mais de uma vez, à beira do abismo. O dinheiro novo teria destino certo: um fundo para adquirir empresas e injetar IA em suas operações, com a divisão de robótica Roze como peça central.
Por que o Golfo, e por que agora
Não é a primeira vez que Son recorre aos cofres do Oriente Médio. Em 2017, a Mubadala (EAU) e o Fundo Soberano Saudita (PIF) ancoraram o Vision Fund original de US$ 100 bilhões. Desde então, o primeiro fundo entregou US$ 29 bilhões em ganhos; o segundo, que carrega a fatia na OpenAI, já gerou US$ 20,5 bilhões.
Mas o cenário mudou. A oferta recorde de títulos de alto risco do SoftBank no mês passado — US$ 11 bi a yields de 9,75% — sinaliza que o apetite por dívida tem limite. Com a IPO da OpenAI travada e as ações do grupo caindo 30% desde o pico de junho, Son precisa de sócios com horizonte longo e tolerância a volatilidade.
- EAU: MGX e G42 lideram a ofensiva de IA em Abu Dhabi
- Arábia Saudita: PIF diversifica receitas do petróleo via tecnologia
- Histórico: Ambos já são LPs (limited partners) nos Vision Funds
O modelo “comprar, turbinar, vender” e seus riscos
A tese do novo fundo é simples no papel: aquisição de ativos operacionais, aplicação de IA generativa e robótica física para elevar margens, saída com valuation inflado. A Roze, aposta de Son em “IA física”, seria o motor de execução — e candidata a uma listagem futura com múltiplo premium.
O problema: não há garantia de que as conversas no Golfo avancem. Investidores locais assistiram ao colapso da WeWork e à montanha-russa do portfólio do SoftBank. A relação dívida/ativos do grupo está em 13% (teto interno de 25%), mas analistas alertam que uma desvalorização forte da OpenAI pressionaria as garantias dos empréstimos atrelados à Arm.
O que está em jogo para o ecossistema de IA
Um cheque de nove dígitos do Golfo não apenas estende a pista de pouso do SoftBank. Ele sinaliza que o capital soberano do Oriente Médio está disposto a subir a aposta na infraestrutura de IA global — justo quando a Anthropic, rival da OpenAI, prepara sua própria IPO potencialmente recorde.
Son resume a convicção: “quem condena a IA está cuspindo para cima”. Em julho, porém, admitiu que a tecnologia nas mãos de “agentes mal-intencionados” torna-se “extremamente perigosa”. A dualidade resume o momento: otimismo estrutural, medo tático.
O que observar nas próximas semanas
Três variáveis definirão se o plano de Son decola ou emperra: (1) avanço concreto nas negociações com MGX, G42 e PIF; (2) sinalização da OpenAI sobre nova janela de IPO; (3) comportamento do yield dos bonds do SoftBank no mercado secundário. Se o spread alargar, a capacidade de alavancagem via dívida encolhe — e o cheque do Golfo deixa de ser opcional para virar vital.
Para quem acompanha alocação de capital em IA, o desfecho dessa captação será termômetro do apetite real de dinheiro soberano por risco tecnológico em 2024.
