Economia

O segredo por trás das datas 10/10 e 11/11 que o varejo não quer que você perceba…

Calendário destacando datas 10/10 e 11/11 com ícones de compras e porcentagens de desconto
Datas simétricas como 10/10 e 11/11 viraram megaeventos de vendas no varejo brasileiro.

O varejo brasileiro descobriu um atalho para faturar alto meses antes da Black Friday: transformar datas simétricas em eventos de consumo. A estratégia, importada da China, já move centenas de milhões em cupons e fez o 7.7 superar a maior sexta-feira de descontos do ano em volume de transações.

Mas há um efeito colateral que poucos comentam: o consumidor está sendo condicionado a nunca comprar pelo preço cheio.

Como números iguais viraram máquina de vendas

A lógica nasceu no Singles’ Day chinês, o 11 de novembro, popularizado pelo Alibaba. A simplicidade do calendário — 10/10, 11/11, 12/12 — elimina a necessidade de explicar a promoção. O próprio número já carrega a mensagem.

No Brasil, a Shopee liderou a adaptação. Em seis anos, a plataforma realizou 68 campanhas de “datas duplas” e distribuiu mais de R$ 420 milhões apenas em cupons nesses períodos. Amazon e Mercado Livre replicaram o modelo com calendários próprios.

O Mercado Livre revelou que o 7.7 de 2024 registrou o maior volume de vendas da história da empresa no país, superando a Black Friday do ano anterior em transações, itens vendidos e compradores únicos.

Os gatilhos psicológicos por trás da simplicidade

Segundo Gabriel Gerhardt, especialista em marketing e sócio da AlwaysON, a facilidade de memorização cria associação direta entre a data e a compra. Isso permite explorar dois pilares do comportamento do consumidor:

  • Urgência: mensagens do tipo “só hoje” comprimem a janela de decisão
  • Escassez: “última oportunidade” eleva o valor percebido da oferta

A combinação dispensa campanhas publicitárias complexas. O calendário faz o trabalho pesado.

O risco invisível: ensinar o cliente a esperar

Gerhardt alerta para um fenômeno silencioso. Quando descontos se tornam rotina mensal, o consumidor aprende a postergar compras. O conceito técnico é incrementalidade: a promoção só agrega valor se gerar uma venda que não ocorreria naturalmente.

O problema surge quando o desconto apenas antecipa uma compra já decidida — ou pior, faz o cliente adiar a aquisição até a próxima data dupla. O resultado é uma base de clientes que associa a marca permanentemente a “preço promocional”, dificultando vendas a valor cheio.

Black Friday diluída: o calendário que não para de crescer

A multiplicação de datas promocionais esvaziou a própria Black Friday. O que era uma sexta-feira virou semana, depois mês inteiro. Em 2024, campanhas relevantes começam em outubro.

Para Gerhardt, a antecipação também reflete a fuga da guerra de atenção contra os gigantes nos 30 dias de novembro. “Os consumidores pesquisam preços desde agosto e setembro. O gatilho de exclusividade da Black Friday deixou de existir”, afirma.

A Amazon ilustra a fusão de calendários: uniu o 10/10 ao Dia das Crianças (12/10) na “Mega Oferta Prime”, exclusiva para assinantes, com descontos de até 80% entre 5 e 11 de outubro.

O que está em jogo nos próximos meses

O calendário de “datas duplas” não para em outubro. O 11/11 e o 12/12 já estão no radar de Shopee, Shein, Mercado Livre e Amazon. A Shein, por exemplo, atraiu 310 mil espectadores em uma live de nove horas no 9/9.

Para o lojista, a lição prática é clara: depender exclusivamente de grandes datas concentra risco. Distribuir estímulos ao longo do ano suaviza a sazonalidade, mas exige cuidado para não treinar o cliente a comprar só com cupom.

Para o consumidor, a regra de ouro permanece: monitorar preços históricos antes de qualquer “data mágica”. O desconto real costuma ser menor do que a urgência sugere.

O que observar daqui pra frente: se o 11/11 repetir o feito do 7.7 e superar a Black Friday novamente, o varejo terá confirmado a mudança estrutural — o pico de vendas do ano deixou de ser novembro e virou um calendário contínuo de picos mensais.