O Financial Times publicou editorial afirmando que a família Bolsonaro mantém capital político intacto para 2026, traçando paralelo direto com a volta de Donald Trump nos Estados Unidos. A análise expõe fissuras no governo Lula que vão além da aprovação oscilante.
O jornal britânico não faz previsão: diagnostica um cenário onde a oposição organizada encontra espaço para crescer.
O que o editorial realmente diz
O texto do Financial Times argumenta que a inelegibilidade de Jair Bolsonaro não sepultou o projeto de poder do clã. Pelo contrário: a transferência de votos para aliados em 2024 mostrou que a máquina de mobilização segue funcional. O jornal cita pesquisas recentes onde o ex-presidente ainda lidera intenções de voto espontâneas na direita, mesmo impedido de concorrer.
Três pilares sustentam essa leitura:
- Base fiel: 30% do eleitorado se declara bolsonarista convicto, segundo Datafolha de dezembro
- Estrutura digital: redes de WhatsApp e canais no YouTube mantêm engajamento superior a qualquer outra força política
- Sucessores naturais: Michelle Bolsonaro, Tarcísio de Freitas e Eduardo Bolsonaro aparecem como alternativas viáveis
O flanco exposto do Planalto
O editorial aponta que Lula governa com maioria parlamentar frágil, dependente de negociações caso a caso no Centrão. A reforma tributária avançou, mas o arcabouço fiscal gera desconfiança no mercado. O crescimento do PIB em 2023 (2,9%) não se traduziu em sensação de melhora para a classe média — justamente o grupo que migrou para Bolsonaro em 2018.
Inflação de alimentos acima da meta, juros reais ainda elevados e o desgaste de ministérios-chave compõem o quadro que o Financial Times chama de “vulnerabilidade estrutural”.
O fator Trump e a lição americana
A comparação com os EUA não é decorativa. O jornal destaca semelhanças: liderança carismática afastada do cargo por questões judiciais, base que vê o sistema como ilegítimo, e oposição fragmentada sem narrativa unificadora. Nos EUA, isso produziu retorno em quatro anos. No Brasil, o calendário é mais curto: a definição de candidaturas viáveis ocorre já no primeiro semestre de 2025.
Mas há diferença crucial: o sistema eleitoral brasileiro exige coligações formais desde o primeiro turno. Isso obriga o bolsonarismo a negociar com partidos de centro — o mesmo Centrão que hoje sustenta Lula.
O que observar nos próximos 18 meses
Março de 2025: janela partidária define palanques estaduais. Migrações de prefeitos e deputados sinalizam para onde o vento sopra.
Junho de 2025: convenções partidárias testam a unidade da direita. Rachaduras entre Tarcísio, Michelle e Eduardo podem ser fatais.
Setembro de 2025: pesquisa Datafolha/Genial com cenários nominais. Se Bolsonaro inelegível ainda liderar transferência de votos acima de 60%, o jogo muda.
O Financial Times não crava vencedor. Entrega um aviso: subestimar a capacidade de reconstituição da direita brasileira é o mesmo erro que analistas cometeram com Trump em 2021. Quem ignora o sinal, paga a conta em 2026.
