A ex-funcionária Claire Stapleton passou 12 anos construindo a “voz” do Google para, no final, ser silenciada pela própria empresa. Seu livro “Don’t Be Evil” revela que, por trás da fachada inovadora, a big tech replica vícios corporativos arcaicos — e pune quem ousa questioná-los. A narrativa não é sobre falhas técnicas, mas sobre gente.
Stapleton entrou na gigante recém-formada e subiu rápido escrevendo discursos para Larry Page e outros executivos. O reconhecimento a levou ao prestigiado Creative Lab, em Nova York. O que parecia o auge da carreira virou o início do pesadelo: uma chefe distante, projetos vazios e a sensação crescente de ocupar um “bullshit job” — conceito do antropólogo David Graeber para funções que o próprio funcionário considera inúteis.
Quando o trabalho “dos sonhos” vira teatro corporativo
A autora detalha tarefas que beiram o absurdo para uma empresa daquela envergadura. Ela foi escalada para criar um serviço pago de videochamadas ensinando tarefas já gratuitas no YouTube, como dar nó em gravata. Depois, no próprio YouTube, caçou vídeos que o algoritmo “poderia ter perdido”, embora a automação já fizesse isso.
O critério de sucesso, descobriu ela, não era entrega de valor. Uma gestora deixou claro que “harmonia, deferência, disponibilidade” pesavam mais que resultados concretos. A cultura premiava a lealdade performática, não a competência.
- Ghostwriting executivo: Stapleton redigia falas e e-mails para Page e diretores, moldando a narrativa interna.
- Projetos fantasmas: Iniciativas pagas replicando conteúdo gratuito ou automatizado.
- Métricas de vaidade: Equipes existiam para ampliar influência política interna, não para resolver problemas do usuário.
O estopim de US$ 90 milhões e a greve de 20 mil
Tudo mudou em 2018. O New York Times expôs que o Google pagou US$ 90 milhões a Andy Rubin, criador do Android, após acusação crível de má conduta sexual. A indignação interna explodiu. Stapleton ajudou a organizar o Google Walkout: mais de 20 mil funcionários e terceirizados paralisaram atividades globalmente.
O movimento coletou mais de 350 relatos de assédio, discriminação e retaliação. A resposta da direção? Mudanças cosméticas. Nos meses seguintes, os organizadores começaram a sentir o peso da máquina.
Retaliação cirúrgica: o manual de silenciamento
Stapleton descreve um padrão preciso. Perdeu atribuições, foi excluída de projetos e iniciou uma via-crúcis por RH e investigações internas. As respostas beiram o cínico:
- Uma executiva de RH sugeriu licença por saúde mental ao ouvir a denúncia de boicote.
- Uma investigação sobre sua chefe terminou com recomendação de treinamento de comunicação para a gestora.
Ela pediu demissão em junho de 2019. Outros líderes do Walkout seguiram o mesmo caminho, relatando perda de espaço e punições veladas. Anos depois, a caixa de entrada de Stapleton encheu com relatos idênticos de funcionários de Meta, Amazon, Apple — o padrão não é exclusividade do Google.
O que isso sinaliza para quem investe ou lidera em tech
O livro, lançado nos EUA em 4 de agosto de 2026 pela William Morrow (HarperCollins), junta-se a “Careless People” (Sarah Wynn-Williams, ex-Facebook) numa onda de literatura “insider” que expõe a fragilidade da governança nas big techs. Para o mercado, o recado é claro: cultura tóxica não é risco reputacional futuro, é passivo presente.
Empresas que normalizam o “bullshit job” e retaliam whistleblowers internos destroem capital humano de alto custo e criam passivos jurídicos invisíveis nos balanços. Daqui para frente, observe dois indicadores: a taxa de retenção de talentos sêniores em áreas sensíveis (ética, moderação, policy) e a transparência nos processos de compliance de conduta. Onde há fumaça organizacional, o fogo costuma queimar o valuation.
