Economia

Chuvas no Brasil param moagem e disparam preço do açúcar: 35 mi de toneladas ficam no campo

Cana-de-açúcar alagada por chuvas excessivas no Centro-Sul do Brasil, colheitadeiras paradas na lama
Chuvas históricas paralisam colheita de cana e deixam 35 milhões de toneladas no campo no Brasil

As chuvas excessivas no centro-sul do Brasil derrubaram a moagem de cana a níveis críticos e provocaram uma alta de até 5% no açúcar em Nova York nesta sexta-feira (2). O que começou como um problema de campo virou uma cascata logística que atinge portos, contratos futuros e a safra do ano que vem.

Dados da Datagro mostram que a média semanal de cana processada por usina caiu 28% em menos de dois meses. A consequência imediata: milhões de toneladas ficarão para trás, alterando o calendário de 2025.

O tombo da moagem em números

Na semana encerrada em 27 de setembro, cada usina do centro-sul moeu em média 76.242 toneladas. No início de agosto, esse número era 105.844 toneladas. A queda de quase 30 mil toneladas por unidade, por semana, explica o atraso generalizado.

O economista sênior da consultoria, Bruno Wanderley de Freitas, resume: setembro foi perdido para a chuva. E a previsão mantém o cenário úmido nos próximos dias.

O que fica no campo vira passivo para 2025

Cerca de 35 milhões de toneladas de cana não serão colhidas este ano. Elas permanecem no solo e só entrarão na moagem a partir de março do ano que vem. Isso significa:

  • Safra 2024/25 encurtada na reta final
  • Início da safra 2025/26 com estoque de matéria-prima no campo
  • Pressão logística concentrada nos primeiros meses do ano

O inverno que recém terminou foi o mais chuvoso em 110 anos na região de Piracicaba, segundo estação da USP. O El Niño cumpriu o roteiro: sul mais úmido, norte mais seco.

Portos parados: a logística também travou

O problema não para na lavoura. Em Santos, principal porto açucareiro do país, as operações de embarque foram interrompidas por pelo menos 35 dias no trimestre julho-setembro. Em Paranaguá, foram 30 paralisações no mesmo período.

O motivo é estrutural: os berços de carregamento não são cobertos. Quando chove, o embarque para evitar que o açúcar se molhe. Analistas do setor classificam o quadro como “cascata de problemas” derivada do mesmo fenômeno climático.

Preço reage: alta de 5% em Nova York

O mercado futuro respondeu na sexta-feira. O contrato de açúcar em Nova York subiu até 5% no dia, impulsionado pela combinação de:

  • Quebra de ritmo no maior exportador global
  • Problemas de produção na Europa e na Ásia
  • Incerteza sobre volume final da safra brasileira

Michael McDougall, da McDougall Global View, aponta que a conjugação de fatores climáticos e logísticos cria um prêmio de risco nas cotações.

O que observar daqui para frente

Três variáveis definirão o tamanho do impacto nos próximos meses: a continuidade das chuvas em outubro, a capacidade das usinas de acelerar a moagem em janelas de tempo seco e a velocidade de retomada dos embarques portuários. Se o clima não colaborar, o atraso de 35 milhões de toneladas pode se ampliar — e o prêmio de risco no açúcar tende a se sustentar.