A Nike confirmou corte de vagas no quadro de 73 mil funcionários e projetou queda de receita na casa dos bilhões de dólares para o ano fiscal vigente. As ações desabaram 6,6% após o anúncio, atingindo o menor patamar desde 2013. O plano de reestruturação, batizado de “Pace”, mira economia de US$ 2,5 bilhões em cinco anos.
O choque imediato nos números do primeiro trimestre
A receita do trimestre encerrado em agosto somou US$ 11,2 bilhões, recuo de 4% na comparação anual. O lucro líquido encolheu 2%, para US$ 712 milhões. Ambos os indicadores ficaram abaixo das estimativas de consenso compiladas pela Visible Alpha.
A queda não foi uniforme. A China, segundo maior mercado da companhia, registrou tombo de 22% nas vendas. Marcas locais, muitas nascidas como fabricantes de gigantes ocidentais, roubaram participação de mercado de forma agressiva.
Outro ponto de atenção: a divisão de vestuário e a marca Jordan apresentaram contração de dois dígitos. O excesso de relançamentos de modelos retrô saturaram a demanda pelo ícone do basquete.
Por que a estratégia “Direct-to-Consumer” travou
Elliott Hill, CEO há quase dois anos, herdou um modelo que priorizava vendas próprias em detrimento do varejo parceiro. A aposta era margem maior e controle de dados. O resultado? Prateleiras vazias nos parceiros e perda de visibilidade orgânica.
Agora, a ordem é “velocidade e localismo”. Hill declarou em nota interna que o futuro pertence a quem atende o atleta de forma mais local e inova com agressividade. Para isso, a estrutura precisa enxugar.
Os três pilares do plano de corte de US$ 2,5 bi
- Consolidação geográfica: redução de quatro para três divisões regionais.
- Novo polo tecnológico: campus em Bengaluru, Índia, focado em talento de engenharia e dados.
- Força de trabalho: redução de postos não quantificada publicamente, mas admitida como necessária para “redirecionar investimentos”.
A Índia surge como aposta dupla: mercado consumidor em expansão e hub de manufatura alternativo à China e Vietnã.
A armadilha da marca Jordan e a volta da escassez
Hill foi direto na chamada com analistas: a Jordan Brand sofreu com “oferta excessiva de produtos icônicos”. A solução anunciada é resgatar o modelo de escassez controlada — lançamentos limitados, filas digitais, hype artificial.
Funcionou no passado. A dúvida do mercado é se a tática ainda convence a Geração Z, acostumada a variedade imediata e revendedores (resellers) ditando preços no secundário.
O que observar daqui para frente
O próximo ano fiscal será o termômetro real da virada. Investidores devem monitorar três variáveis: a velocidade de recomposição de estoque no varejo parceiro, a aceitação dos novos lançamentos “escassos” da Jordan e a execução do campus indiano sem estouro de orçamento. Se a receita estabilizar acima de US$ 11 bi no próximo trimestre, o pessimismo atual pode abrir janela de entrada. Caso contrário, a reestruturação terá de ser mais profunda do que o previsto.
