Meio Ambiente

O segredo energético dos presidenciáveis: petróleo hoje, promessas verdes para depois

Petróleo e energias renováveis em balança: dilema dos presidenciáveis brasileiros
Candidatos defendem petróleo hoje e promessas verdes para o futuro, sem cronograma de descarbonização

Oito dos doze candidatos à Presidência defendem manter ou expandir a produção de petróleo e gás, enquanto nove prometem investir em renováveis. A contradição expõe um dilema: como financiar a transição sem abrir mão da receita fóssil que ainda sustenta o caixa público.

Levantamento exclusivo com base nos planos de governo protocolados no TSE revela que nenhum dos postulantes apresenta cronograma efetivo para a descarbonização. Especialistas ouvidos pela reportagem classificam as propostas como “discursos de boa intenção sem detalhamento operacional”.

O xadrez de Lula: renováveis no discurso, petróleo na prática

O programa do presidente Lula (PT) compromete-se com a “substituição progressiva de combustíveis fósseis por biocombustíveis e combustíveis de baixa intensidade de carbono”. Ao mesmo tempo, a campanha confirma que o país seguirá produzindo petróleo e gás, condicionando investimentos a licenciamento ambiental, viabilidade econômica e metas climáticas.

Para Rosana Santos, diretora do Instituto E+ Transição Energética, a lógica é explorar até a última gota e usar os lucros para financiar a descarbonização. “Os royalties do petróleo são pagos até hoje para os municípios e não trouxeram o desenvolvimento de uma economia longe dos fósseis. O que vai ser diferente?”, questiona.

Flávio Bolsonaro aposta no fracking e segurança energética

O plano do senador (PL) propõe Programa Nacional de Segurança Energética focado em refino, processamento e transporte de combustíveis e gás. O documento sugere “transformar em energia e emprego a nossa riqueza de petróleo e gás” e inclui a permissão do fracking — técnica de extração por fraturamento hidráulico com injeção de água e químicos no subsolo.

Suely Araújo, do Observatório do Clima, classifica a liberação do fracking como “escolha equivocada”: “Temos muitas outras opções para evitar um caminho muito degradador e que envolve muitos riscos ambientais”. A campanha não respondeu aos questionamentos.

Metas ousadas convivem com zonas francas de fósseis

Augusto Cury (Avante) estabelece metas concretas: 90% da matriz energética limpa até 2040 e posição entre os três maiores exportadores de hidrogênio verde até 2035. Paradoxalmente, propõe zona franca no Rio de Janeiro voltada à cadeia de petróleo e gás. A campanha afirma ser contra novas frentes de carvão e defende redução progressiva da dependência fóssil.

Ronaldo Caiado (PSD) chama o petróleo de “pilar da matriz, motor da transição” e propõe estratégia de 30 anos integrando eletricidade, petróleo, gás e minerais. Romeu Zema (Novo) quer “destravar investimentos em petróleo e gás” com calendário regular de leilões, mas também alavancar energia limpa e reduzir o corte de geração renovável (curtailment).

O espectro ideológico não garante coerência

  • Edmilson Costa (PCB): defende reduzir queima de fósseis, mas apoia uso durante transição com fundo petrolífero para financiamento
  • Samara Martins (UP): prioriza transição, mas não impede abertura de novos campos “conforme interesses do povo”
  • Hertz Dias (PSTU): único a se opor frontalmente a leilões e exploração na Foz do Amazonas
  • Renan Santos (Missão): hidrogênio verde e polo industrial de Suape abastecido a gás natural

Planos de Rui Costa Pimenta (PCO), Clariana Barão (DC) e Wilson Grassi (Democrata) não detalham propostas específicas para transição energética.

A armadilha do gás como “ponte” sem data de saída

O perigo identificado por analistas é o país travar investimentos industriais em adaptações para gás natural sem planejar a redução futura. “Incentivamos agora sem um plano de como sair disso lá na frente”, resume Santos. A ausência de cronogramas vinculantes transforma promessas de transição em declarações de intenção sem força de política pública.

O que observar nos próximos meses

Três variáveis definirão se o discurso vira prática: detalhamento de mecanismos de funding para renováveis (leilões, subsídios, precificação de carbono), definição de marcos regulatórios para hidrogênio verde e armazenamento, e, principalmente, se algum candidato apresentará data-limite para pico de produção fóssil. Sem isso, o Brasil segue exportando petróleo e importando incerteza climática.