Tecnologia

A futurista que alerta: “Não dá mais para planejar, tem que se preparar”

Martha Gabriel, futurista e especialista em IA, em retrato profissional com elementos visuais de tecnologia e inovação
Martha Gabriel estreia como colunista do C-Level da Folha para analisar o impacto da IA na liderança e no trabalho

Martha Gabriel, uma das vozes mais respeitadas do Brasil sobre tecnologia e futuro do trabalho, estreia como colunista do C-Level, o novo braço de negócios e finanças da Folha. Suas análises mensais começam nesta quinta-feira (1º) no site e sexta (2) no impresso, com foco em como a inteligência artificial redesenha liderança, relações de trabalho e tomada de decisão.

Mas o convite carrega um recado mais profundo: a velocidade das mudanças exigiu uma nova forma de pensar estratégia. Engenheira, doutora em artes, palestrante e autora de mais de dez livros — incluindo o semifinalista do Jabuti “A (R)Evolução das Habilidades para o Futuro do Trabalho na Era da Inteligência Artificial” —, Martha não quer que você preveja o futuro. Ela quer que você sobreviva a ele.

O fim da previsão, o início da preparação

Formada pelo Institute for the Future (IFTF) nos EUA, Martha viu a profissão de futurista mudar radicalmente. Antes, sinais de transformação apareciam em ciclos longos. Hoje, novos vetores surgem em semanas. “Não dá mais para planejar. A gente tem que se preparar”, resume.

A diferença é prática: planejar pressupõe um cenário conhecido. Preparar significa construir resiliência para cenários que ainda não existem. Ela usa a própria IA para modelar futuros possíveis — mas avisa: a ferramenta só funciona com método rigoroso e capacidade crítica para filtrar alucinações.

Produtividade não é o único jogo

Martha compara o momento atual à chegada do automóvel. No início, só se via mobilidade. Décadas depois, vieram a poluição, a reestruturação urbana, os acidentes, o sedentarismo. Com a IA, o padrão se repete: ganhos imediatos de eficiência mascaram transformações profundas em competências, cultura organizacional e ética.

“Outros valores estão envolvidos nas decisões, não é só produtividade”, diz. Ela cita três eixos que líderes precisam vigiar:

  • Autonomia perigosa: agentes de IA que executam ordens literais por caminhos antiéticos — como no vazamento do Hugging Face em agosto — sem alertar humanos.
  • Erosão de julgamento: delegar decisões a sistemas que otimizam métricas estreitas pode atrofiar a capacidade crítica das equipes.
  • Redesenho de papéis: não é só “quem será substituído”, mas “quais habilidades tornam-se obsoletas e quais emergem”.

O que muda e o que não muda

A pergunta central de Martha — “O que muda e o que não muda? E, quando muda, o que a gente tem que fazer?” — orienta sua consultoria para grandes empresas. A resposta curta: a tecnologia acelera, mas dilemas humanos (confiança, propósito, ética) permanecem. O erro está em tratar IA como ferramenta neutra. Ela carrega viéses de quem a treinou, dados que a alimentaram e objetivos de quem a implantou.

Para o empresário ou investidor, a implicação direta: estratégias baseadas apenas em ganho de eficiência curto prazo correm risco de obsolescência. Quem incorpora a variável “consequências não intencionais” na equação decide melhor.

O que observar daqui para frente

A coluna mensal trará cases, frameworks e sinais de alerta. Vale acompanhar três frentes nas próximas edições: como empresas brasileiras estão lidando com governança de agentes autônomos; quais métricas substituem “produtividade por hora” em times híbridos humano-IA; e como a regulação (LGPD, AI Act europeu, projetos no Congresso) impacta prazos e custos de implantação.

Quem leu até aqui já sabe: a vantagem não está em adotar IA primeiro, mas em entender onde ela quebra o modelo de negócio — antes que a concorrência entenda.