Ronaldo de Carvalho morreu nesta quinta-feira (1º), aos 82 anos, deixando uma rede de 1.700 pontos de venda que começou com apenas dez lojas herdadas do pai. O que poucos sabem é que a maior inovação dele não foi de gestão — foi de mentalidade.
Engenheiro mecânico formado pelo ITA, Carvalho assumiu a Drogaria São Paulo em 1971, aos 27 anos. Cinco décadas depois, o varejo farmacêutico brasileiro ainda opera sob regras que ele ajudou a escrever.
O efeito nos pequenos negócios
Antes dele, farmácias compravam remédio só quando o estoque acabava. Carvalho aplicou engenharia de produção ao varejo: previsão de demanda, giro de estoque, logística integrada. O resultado? Fim da “falta crônica” que definia o setor.
Hoje, qualquer rede que opere sem ruptura de prateleira usa, consciente ou não, o modelo que ele implantou nos anos 70. A escala de 1.700 lojas é apenas a consequência visível.
Por que isso muda a sua estratégia hoje
Se você atua em varejo, distribuição ou saúde, três lições diretas saem da trajetória dele:
- Formação técnica vence intuição: A lógica de engenharia reduziu custos e aumentou disponibilidade — métricas que investidores cobram.
- Lojas 24 horas não são custo, são dado: Ele foi o primeiro a abrir farmácias ininterruptas, capturando demanda noturna que concorrentes ignoravam.
- Associação de classe como alavanca: Como fundador e primeiro presidente da Abrafarma, transformou concorrentes em parceiros de lobby regulatório.
Mas o efeito mais relevante aparece na batalha regulatória que ele liderou.
A guerra do zoneamento que ninguém conta
Em 2021, ao comemorar 30 anos da Abrafarma, Carvalho revelou o arrependimento misto ao orgulho: a derrubada do zoneamento que exigia distância mínima entre farmácias em São Paulo. A medida liberou expansão agressiva — e concentração de mercado.
Para o empresário de médio porte, o recado é claro: regras de proximidade protegem incumbentes. Quem entende o jogo regulatório antecipa janelas de entrada.
O que observar daqui pra frente
Os dois filhos, Flávio e Paulo Carvalho, ocupam assentos no conselho do Grupo DPSP (fusão entre Drogaria São Paulo e Drogarias Pacheco). A sucessão testará se a cultura de “gente preparada, valorizada e inspirada” — palavras do próprio grupo — sobrevive sem o fundador.
Enquanto isso, o varejo farmacêutico brasileiro segue operando no sistema operacional que um engenheiro do ITA escreveu há 50 anos. A próxima atualização não virá de Brasília. Virá de quem estiver atento às lacunas que ele deixou.
