Economia

O segredo por trás das 5 obras bilionárias que travam o Brasil há décadas

Mapa do Brasil destacando cinco grandes obras de infraestrutura paralisadas: Transnordestina, Angra 3, BR-319, Pedral do Lourenço e Transposição do São Francisco
Cinco esqueletos bilionários travam o orçamento de infraestrutura enquanto a dívida pública acelera.

O governo Lula inicia o quarto mandato com cinco esqueletos de concreto e aço consumindo bilhões sem entregar resultado. A conta chega em meio ao aperto fiscal mais severo dos últimos anos.

Ferrovia Transnordestina, Angra 3, BR-319, Pedral do Lourenço e transposição do São Francisco. Juntas, elas explicam por que o orçamento de infraestrutura encolhe 4% em 2027 enquanto a dívida pública acelera.

O mapa dos esqueletos

A Transnordestina nasceu em 2006 com promessa de entrega em 2010. Quase duas décadas depois, faltam 545 km entre Salgueiro e o porto de Suape. O orçamento 2027 reserva apenas R$ 53,4 milhões — valor simbólico perto do necessário.

Angra 3 carrega história mais longa. Projeto dos anos 1980, retomado em 2007, paralisado em 2015. A Eletronuclear prometeu operação em novembro de 2026; não aconteceu. Estudo do BNDES aponta março de 2033 e custo de R$ 23,9 bilhões para concluir. Abandonar sai entre R$ 21,9 e R$ 25,9 bilhões. A decisão cabe ao CNPE.

Na BR-319, o asfalto que ligaria Porto Velho a Manaus avança em quatro lotes contratados em 2026 — R$ 1,3 bilhão para 339 km. Licença do Ibama saiu para três pontes. Leilão de PPP previsto para dezembro de 2027, se etapas ambientais forem cumpridas.

O Pedral do Lourenço, no rio Tocantins, trava escoamento de grãos e minérios no Pará há dez anos. Custo estimado: R$ 1,1 bilhão. Derrocamento deve começar em março de 2027, com fim em dezembro de 2030.

A transposição do São Francisco, iniciada em 2007, tem canais centrais operando. Faltam ampliações do Eixo Norte. Previsão de conclusão em 2027 com R$ 561 milhões no orçamento.

O dinheiro que falta

A proposta orçamentária para 2027 prevê R$ 16,07 bilhões em investimentos federais de transporte (União + estatais). São R$ 661,28 milhões a menos que 2026 em valores corrigidos. A CNT calcula necessidade de R$ 49,93 bilhões só para manutenção e restauração das rodovias federais. O previsto cobre um quarto.

  • Angra 3: R$ 1,12 bilhão reservados em 2027 (não resolve financiamento integral)
  • Rodovias federais: R$ 12,46 bilhões previstos
  • Transnordestina: R$ 53,4 milhões
  • Transposição: R$ 561 milhões

A aposta nas concessões

O Ministério dos Transportes argumenta que a transferência de 8.000 km à iniciativa privada nos últimos anos — mais 3.000 km previstos para 2027 — reduziria em R$ 2 bilhões anuais a necessidade de custeio e manutenção. “A concessão de rodovias economicamente atrativas permite direcionar recursos públicos para projetos que o mercado, isoladamente, não conseguiria viabilizar”, diz a pasta.

O TCU registrou 4.215 projetos paralisados em 2026 entre 22.414 fiscalizados. O ministério nega paralisações em seus contratos, falando em “ajustes pontuais”.

O que observar daqui pra frente

A decisão sobre Angra 3 definirá o rumo de dezenas de bilhões e a matriz energética por décadas. O cronograma do Pedral teste a capacidade de execução em ambiente amazônico sensível. A PPP da BR-319 será termômetro do apetite privado por risco ambiental. E a Transnordestina dirá se promessas de 2006 finalmente viram trilhos — ou se viram apenas mais uma linha no orçamento.