Cultura

72 anos de feira, 1ª patrona negra: o que essa mudança sinaliza para o mercado

Heloisa Pires Lima, primeira patrona negra da Feira do Livro de Porto Alegre, sorri segurando livro
Heloisa Pires Lima faz história como primeira mulher negra patrona em 72 edições da Feira do Livro de Porto Alegre.

Pela primeira vez em 72 edições, a Feira do Livro de Porto Alegre tem mulheres nos dois principais postos de comando. A antropóloga e escritora Heloisa Pires Lima assume o patronato enquanto Roseni Siqueira Kohlmann preside a entidade promotora. Mas o simbolismo vai além do gênero: Heloisa é a primeira mulher negra eleita patrona em mais de sete décadas de evento. O que essa ruptura revela sobre a economia da cultura e a formação de leitores no Brasil?

Os números por trás do maior evento a céu aberto da América Latina

Durante 17 dias, a capital gaúcha concentra mais de 700 atividades gratuitas. A programação transforma ruas e praças em corredores de circulação de conhecimento, atraindo público diverso e movimentando a cadeia produtiva do livro — de editores a livreiros, passando por autores e mediadores de leitura.

O volume de ações gratuitas não é apenas um dado cultural; é um indicador de política pública de acesso. Em um país onde o preço médio do livro ainda barreiras para classes C e D, eventos de larga escala e custo zero funcionam como principal porta de entrada para novos consumidores de conteúdo.

Por que a patrona negra muda o jogo editorial

O Rio Grande do Sul tem 21% de população negra, segundo dados do IBGE, mas a história da feira — iniciada em 1955 — registrou apenas duas pessoas negras no patronato em 72 anos. Heloisa Pires Lima é a primeira mulher nesse rol.

A escolha não é apenas reparatória. A trajetória da patrona está ancorada na literatura infanto-juvenil com protagonismo negro, segmento que cresce duas vezes mais que a média do mercado editorial brasileiro, segundo levantamentos recentes da CBL (Câmara Brasileira do Livro). Investir nessa fatia significa falar com o leitor do futuro — e com as famílias que decidem a compra.

  • Público-alvo expandido: crianças e jovens que não se viam representados nas prateleiras.
  • Validação institucional: o selo de “patrona” sinaliza para escolas e bibliotecas quais autores merecem acervos prioritários.
  • Efeito cascata: editoras passam a buscar manuscritos com diversidade real, não apenas temática de superfície.

Mas o efeito mais relevante aparece na declaração dada com exclusividade durante o evento.

O recado direto ao mercado: “livros racistas não merecem ser lidos”

A frase, curta e definitiva, desloca o debate da representação para a curadoria. Não basta publicar autores negros; é preciso retirar de circulação obras que reforcem estereótipos — muitas ainda adotadas em listas escolares por inércia ou desconhecimento.

Para gestores de aquisição em redes de ensino, secretarias de educação e curadores de feiras, o critério deixa de ser apenas “tem autor negro?” e passa a ser “esta obra constrói ou destrói repertório antirracista?”. A diferença muda orçamentos de aquisição e critérios de licitação.

O que observar daqui para frente

A 72ª edição funciona como caso-teste: a maior feira a céu aberto da América Latina, sob liderança feminina e negra, pode estabelecer novo padrão de curadoria para o circuito nacional de eventos literários. Acompanhe três vetores nos próximos 12 meses:

  • Alteração em editais públicos de aquisição de acervos escolares e bibliotecas comunitárias.
  • Movimento de editoras médias e grandes para contratação de leitores de sensibilidade (sensitivity readers) em fase de pré-produção.
  • Indicadores de venda no segmento infanto-juvenil diversificado versus títulos tradicionais sem atualização de linguagem.

Quem atua na ponta — seja em estratégia de conteúdo, gestão cultural ou investimento em edtech — ganha vantagem ao tratar a diversidade não como pauta de responsabilidade social, mas como variável de desempenho de mercado. A feira de Porto Alegre acaba de provar que a equação fecha.