O mercado brasileiro de motocicletas está prestes a quebrar todos os recordes. A projeção para 2026 aponta 2,35 milhões de unidades vendidas, superando o marco histórico de 2025. Mas o que sustenta essa escalada vertiginosa em um cenário de juros altos?
O motor por trás dos números
A Abraciclo estima que a produção atinja 2,1 milhões de unidades neste ano, volume igual ao auge de 2008 e 2011. O recorde anterior de emplacamentos, de 1,9 milhão em 2011, já ficou para trás. O segredo não está em um único fator, mas na convergência de três forças: a explosão do delivery por aplicativo, a burocracia reduzida no financiamento via consórcio (um terço das vendas) e a extinção dos carros populares de entrada, hoje acima de R$ 70 mil.
Enquanto outras indústrias sinalizam perda de competitividade, a Honda anunciou aporte de R$ 3,3 bilhões até 2030. A fábrica de Manaus saltará de 1,6 milhão para 2,3 milhões de unidades/ano em 2029, gerando 2 mil empregos diretos. A marca detém 65,6% do mercado, seguida pela Yamaha (13,8%), Shineray (6%) e Mottu (4,8%).
Preço acessível e o “efeito delivery”
Modelos de 110 cc a 125 cc partem de R$ 11 mil. As mais vendidas, de 150 cc a 160 cc, custam cerca de R$ 20 mil. Segundo Sergio Oliveira, da Abraciclo, 22% das vendas atuais destinam-se ao delivery — um legado da pandemia que se consolidou como estrutura permanente de renda.
- Consórcios: Respondem por 33% do financiamento, com entrada facilitada.
- Custo-benefício: Baixo consumo e manutenção barata frente a automóveis.
- Barreira zero: Modelos “autopropelidos” (até 32 km/h) dispensam CNH e emplacamento.
A aposta chinesa e a fábrica verde
O segmento de entrega vive nova onda de capital. 99 e Keeta (capital chinês) tentam desafiar o iFood, que promete R$ 24 bilhões até março de 2027. Paralelamente, a Watts (grupo Multi) migrou para elétricos. O modelo W125 atende frotas corporativas cervejeiras e de segurança, mas o volume real está nos scooters “autopropelidos”. A fábrica em Manaus tem ociosidade: capacidade para 100 mil unidades/ano, operando abaixo da metade. A solução foi montar motos da indiana Royal Enfield no mesmo parque.
O lado invisível: trabalho, risco e regulação
Para o economista Marcelo Neri (FGV Social), a moto é a “porta de entrada” para jovens fora do mercado formal. 600 mil entregadores ativos só no iFood ilustram a escala. Porém, não há seguro-desemprego nem proteção à saúde. Acidentes são “prementes”, diz Neri. Um PL na Câmara propõe piso de R$ 8,50 por entrega; plataformas rejeitam alegando repasse ao consumidor.
O governo lançou o Move Brasil: financiamento de 100% em 48 meses sem entrada. Em outubro de 2026, 21 mil motos foram contratadas via programa. A 99 aportou R$ 45 milhões no fundo YvY Capital para viabilizar 600 mil elétricas até 2035. O iFood banca 90% da CNH categoria A para ciclistas (meta: 2 mil em 2027, 40% mulheres) e tem parceria exclusiva de financiamento com a Mottu.
O que observar daqui para frente
A concentração em Manaus (>90% da produção) cria dependência logística e fiscal. A transição para elétricos depende de infraestrutura de recarga e queda no custo das baterias. O desfecho do PL do piso salarial e a adesão real ao Move Brasil ditarão se o boom se sustenta ou se revela uma bolha social. Para o investidor, o sinal está na capacidade de o setor converter volume em margem — hoje, a guerra de preços no delivery comprime a rentabilidade dos fabricantes menores.
