Economia

Empate histórico: Metade do Brasil já prevê economia pior em 2025

Gráfico mostra empate técnico: 39% esperam melhora e 39% piora na economia brasileira em 2025
Pesquisa Quaest revela divisão inédita dos brasileiros sobre rumos da economia para 2025

Pela primeira vez no terceiro mandato, o otimismo e o pessimismo econômico empatam tecnicamente: 39% dos eleitores apostam em melhora nos próximos 12 meses, e a mesma fatia projeta piora. Em agosto, a vantagem dos otimistas era de 22 pontos percentuais. O que provocou essa virada brusca em menos de três meses?

O derretimento da confiança nos números

O levantamento da Quaest, realizado entre 30 de outubro e 2 de novembro com 2.004 eleitores, expõe uma inversão de expectativas sem precedentes na série histórica recente. Em dezembro de 2022, logo após a posse, 47% previam melhora contra 29% de piora. Hoje, o cenário é de empate técnico, com 19% esperando estabilidade.

A margem de erro é de dois pontos percentuais. Isso significa que a virada não é ruído estatístico: reflete uma mudança real de humor, concentrada em segmentos específicos que costumam ditar o ritmo dos investimentos e do consumo de alta renda.

O abismo entre o topo da pirâmide e a base

O pessimismo não é distribuído igualmente. Ele se concentra onde o poder de fogo financeiro é maior. Veja o recorte por renda e região:

  • Renda acima de 5 salários mínimos: 49% veem piora (era 30% em agosto) contra 30% de melhora.
  • Região Sul: 58% projetam deterioração, ante apenas 24% de otimismo.
  • Ensino superior: 46% pessimistas versus 31% otimistas.

Do outro lado, a base da pirâmide mantém a fé. Entre quem ganha até dois salários mínimos, 48% esperam melhora e só 29% veem piora. No Nordeste, a proporção é de 50% a 25%. A divisão etária também surpreende: jovens de 16 a 34 anos são majoritariamente pessimistas (41% a 34%), enquanto idosos acima de 60 anos lideram o otimismo (43% a 29%).

A digitais política: identidade pesa mais que indicador

Mas o fator que melhor explica a ruptura não é renda nem idade — é o voto. A polarização ditou a leitura da economia:

  • Lulistas: 79% veem melhora, apenas 2% veem piora.
  • Bolsonaristas: 84% preveem piora (eram 38% em agosto).
  • Direita não bolsonarista: O pessimismo saltou de 42% para 80%.
  • Independentes: Estáveis, com 35% otimistas e 30% pessimistas.

A migração da “direita não bolsonarista” para o campo pessimista é o dado mais relevante para analistas de mercado. Sugere que a desaprovação econômica transcendeu o anti-petismo raiz e contaminou o eleitor de centro-direita pragmático, sensível a variáveis fiscais e de previsibilidade regulatória.

O que tira o sono de quem teme o futuro

Para 48% dos eleitores, a preocupação supera o otimismo. Quando questionados sobre o motivo principal, a economia dispara na frente:

  • Economia, gastos, dívida e juros: 27% (chega a 30% na alta renda).
  • Segurança pública: 17%.
  • Corrupção e relação com o Congresso: 12% cada.

Curiosamente, entre os 44% otimistas, a economia mal aparece (6%). O que move a esperança desse grupo é a defesa da democracia (20%), programas sociais (17%) e a regulação de bets e redes sociais (16%). São agendas de valores e redistribuição, não de expansão produtiva.

A conta que o governo terá de pagar

Apesar do medo macroeconômico, as cobranças concretas dos eleitores são microeconômicas e trabalhistas. As três prioridades absolutas, independentemente da renda, são:

  • Fim da escala 6×1 (17%);
  • Isenção de impostos na cesta básica (16%);
  • Valorização do salário mínimo (11%).

Na faixa acima de cinco salários mínimos, fim da escala 6×1 e isenção da cesta básica empatam tecnicamente (17% cada). Programas habitacionais e proteção a trabalhadores de aplicativo aparecem com apenas 4%. O recado é claro: o eleitor quer alívio no bolso e na jornada de trabalho agora, não promessas de longo prazo.

O que observar daqui para frente

O empate técnico de hoje é instável. A próxima janela de definição passa pela execução do arcabouço fiscal e pela capacidade do Planalto de entregar as demandas de custo imediato (cesta básica, escala 6×1) sem estourar a meta de resultado primário. Se o mercado de trabalho seguir aquecido e a inflação comportada, a base da pirâmide sustenta o otimismo. Mas se o custo de crédito permanecer alto e o fiscal der sinais de frouxidão, o pessimismo da alta renda e do Centro-Sul tenderá a contaminar os independentes — o grupo que, no fim das contas, decide eleição e direção de investimentos.