A Le Petit Macarons trocou contratações por máquinas de venda automática e viu a rentabilidade saltar para 40%. Mas será que o modelo ameaça as lojas tradicionais? A resposta surpreende.
A origem da virada: inspiração nos EUA
Durante uma viagem aos Estados Unidos, os sócios Roger Coelho e Valquiria De Marco notaram que vending machines vendiam de tudo: bolos, cookies, brownies. Perceberam que parte dos clientes queria apenas pegar uma caixa pré-montada e sair correndo — sem escolher sabores no balcão. A ideia nasceu ali: oferecer coleções fixas em equipamentos autônomos, eliminando a fila e a necessidade de atendente.
A fase de testes começou em 2025 com quatro máquinas. O objetivo inicial era simples: resolver a dor de cabeça de encontrar gente disposta a trabalhar em quiosques.
Por que a mão de obra secou e o que mudou
Coelho evita diagnósticos políticos. O fato é que a porta de entrada do mercado de trabalho — atendente de quiosque — deixou de atrair candidatos. Franqueados relatavam a mesma dificuldade: turnos vazios, escalas incompletas, operação travada.
A solução encontrada muda a equação: uma máquina exige, no máximo, um repositor para vários equipamentos. Um quiosque precisa de, no mínimo, três funcionários. Multiplique por dez lojas e a diferença salta aos olhos.
Os números que provam: máquina dá mais lucro que quiosque
A rentabilidade conta a história real. Veja a comparação direta:
- Quiosque: aluguel a partir de R$ 7.000 + 3 funcionários → margem ~10%
- Máquina: aluguel ~R$ 1.000 + 1 repositor compartilhado → margem entre 30% e 40%
O faturamento bruto da máquina é menor, mas o que sobra no bolso do franqueado costuma ser maior. Em vários pontos, o equipamento já coloca mais dinheiro líquido do que a loja física ao lado.
Efeito inesperado: máquinas alavancam vendas dos quiosques
Franqueados temiam canibalização. O oposto aconteceu. O cliente experimenta sabores na máquina — framboesa, pistache, amora —, gosta, mas sente falta do bergamota ou do creme brulé que não estão no equipamento. Vai ao quiosque completar a caixa e leva também brownie, chocolate ao leite, outros itens. O ticket médio sobe.
Mas o efeito mais relevante aparece em outro setor.
O gatilho da escala 6×1 e a corrida por equipamentos
Antes da discussão sobre jornada, a média era uma negociação de máquina por semana. Nas duas semanas seguintes à aprovação do fim da escala 6×1, entraram cinco pedidos. Coelho não mapeia causalidade direta, mas o sinal do mercado é claro: a pressão por custos fixos menores acelerou a decisão de investir.
A rede, que hoje tem 28 unidades entre lojas e quiosques, projeta 30 máquinas operando ainda em 2025 e cem até 2027.
Expansão internacional e metas agressivas para 2027
O faturamento consolidado (fábrica + lojas) cresceu 13,08% em 2025 frente a 2024. A meta para 2026 é adicionar mais 16,12%. Paralelamente, a primeira unidade nos Estados Unidos deve abrir no ano que vem — passo inicial para testar o modelo de máquinas em dólar.
O que observar daqui pra frente: a velocidade de adoção das máquinas pelos franqueados atuais, o desempenho da unidade-piloto nos EUA e se a rentabilidade de 30-40% se sustenta com escala. Se o padrão se confirmar, o varejo de impulso pode viver sua maior transformação desde a chegada dos quiosques de shopping.
