Educação

Você não vai acreditar: alunos da periferia lançam foguetes a 300 metros e conquistam o Brasil

Estudantes de escola pública em Caucaia lançam foguetes de garrafa PET na Olimpíada Brasileira de Foguetes
Alunos da periferia de Caucaia conquistam ouro e prata na OBAFOG com foguetes de PET que voam 300 metros.

Seis estudantes de uma escola pública na periferia de Caucaia (CE) acabam de conquistar medalhas de ouro e prata na etapa nacional da Olimpíada Brasileira de Foguetes (OBAFOG), superando equipes de todo o país com projéteis feitos de garrafas PET que voaram mais de 300 metros. O feito expõe uma contradição gritante: a mesma unidade onde apenas 4% dos nonos anos têm aprendizado adequado em matemática acaba de formar campeões nacionais de engenharia aeroespacial amadora.

Como uma escola com indicadores tão baixos produz resultados de elite? A resposta não está em laboratórios de ponta, mas em um professor que recusou aceitar o determinismo do CEP.

O professor que transformou a quadra em centro de lançamentos

Rafael Matos, professor de ciências da Escola Osmar Diógenes Pinheiro, inscreveu mais de 30 equipes — cada uma com três alunos — logo no início do ano letivo. A maioria não passou da fase municipal, realizada em maio no Estádio Raimundão. Duas equipes, porém, voaram acima de 100 metros e garantiram vaga na final nacional no Rio de Janeiro.

O preparo aconteceu na quadra da escola, com mesas espalhadas, garrafas PET, fita adesiva e água pressurizada. Matos chegou a comprar materiais do próprio bolso para alunos que não tinham como arcar com os custos. “É muito massa fazer pessoas atingirem locais que antes só eram destinados a quem tem dinheiro”, resume o docente.

Da surpresa ao ITA: o impacto na trajetória dos medalhistas

Wellyson Correia Lima, 15 anos, integrante da equipe de ouro, admite: “Não esperava uma premiação tão alta. É difícil de imaginar”. O foguete de sua equipe — completada por Eric Silva Lima das Chagas e Francisco Riquelme Almeida Soares — atingiu 303 metros na final em Barra do Piraí (RJ), altura próxima ao topo da Torre Eiffel (330 m). A equipe de prata, com Eryck Vieira Sousa, Marcus André Moreira Freitas e Pedro Yuri Acelino Meneses, marcou 213,3 metros.

O resultado já redesenhou o futuro de Wellyson: “Foi um marco para decidir o que vou fazer. Quero engenharia, sonho com o ITA”. O Instituto Tecnológico de Aeronáutica, inclusive, iniciou a implantação de um campus no Ceará — janela concreta para quem antes não via essa possibilidade.

Quando a comunidade vira agência de fomento

Cada inscrição para a etapa nacional custava R$ 1,4 mil. A Prefeitura de Caucaia cobriu passagens e taxas para os seis alunos e dois professores. Mas o restante — alimentação, hospedagem extra, imprevistos — veio de rifas, vaquinha online e mobilização dos pais. A diretora Maria Auxiliadora da Silva resume: “Quando a gente vê esses meninos em uma realidade onde a violência predomina, e percebe que pela educação eles estão vivenciando algo significativo… isso já é um feito muito grande”.

O bairro Conjunto Metropolitano, conhecido como Picuí, fica em município com IDH de 0,682. Vulnerabilidade social e violência são pano de fundo. Ainda assim, a escola de 600 alunos (creche ao 9º ano) provou que olimpíadas científicas podem ser ponte — não exceção.

O que observar daqui para frente

  • Editais universitários: cada vez mais instituições públicas aceitam medalhas olímpicas como critério de ingresso — o que Matos já antecipava aos alunos.
  • Expansão do modelo: a OBAFOG 2025 deve abrir inscrições no primeiro semestre; escolas com poucos recursos podem replicar a estratégia de baixo custo (PET + água pressurizada + mentoria).
  • ITA no Ceará: a consolidação do campus cearense do ITA pode transformar medalhas regionais em vagas diretas, encurtando a distância entre Picuí e a engenharia aeroespacial.

O recado está dado: foguete de garrafa PET não tem CEP. Mas o acesso à mentoria, ao financiamento e à visibilidade ainda tem. A próxima edição da OBAFOG será o termômetro se esse caso vira padrão ou permanece exceção celebrada uma vez por ano.