O eleitorado americano foi às urnas nas eleições de meio de mandato com um recado claro: quer transformação na economia. Pesquisas confirmavam que o custo de vida era a prioridade absoluta. O problema é que a arquitetura do poder em Washington foi desenhada para ignorar exatamente esse tipo de mandato popular.
A decepção não vem da falta de vontade dos parlamentares, mas de um sistema onde a caneta do presidente pesa mais que o voto do Congresso. Entender por que a “onda” eleitoral tende a quebrar na praia da burocracia executiva é essencial para quem investe ou faz negócios com os EUA.
O muro do veto presidencial: tarifas e guerra
A principal dor do bolso americano hoje vem de fora para dentro: as tarifas de Donald Trump e a instabilidade no Oriente Médio pressionam preços de combustíveis e insumos. O Congresso poderia, em tese, retomar a autoridade sobre tarifas — cedida ao Executivo há 90 anos — ou forçar o fim dos conflitos via resolução de poderes de guerra.
Em ambos os cenários, a barreira é a mesma: o veto presidencial. Com a Casa Branca nas mãos de quem enxerga essas prerrogativas como inegociáveis, qualquer tentativa legislativa morre na mesa do Salão Oval. O resultado prático é a manutenção da pressão inflacionária independentemente da composição partidária do Capitólio.
Saúde: a conta de 15% que ninguém paga
Enquanto o debate foca em geopolítica, o cidadão comum sente o golpe no orçamento doméstico. As seguradoras do mercado do Obamacare (ACA) pediram reajuste mediano de 15% nos prêmios para o próximo ciclo. A equação piorou porque:
- Subsídios temporários para renda média expiraram;
- Segurados saudáveis estão abandonando o pool, encarecendo o risco para quem fica;
- A multa por não ter seguro — mecanismo criado para segurar os saudáveis — foi extinta no primeiro mandato Trump.
Restaurar a penalidade individual exigiria maioria qualificada no Senado e sanção presidencial. A probabilidade política beira zero nos próximos dois anos.
IA e data centers: a conta de energia cai no colo dos estados
A corrida por inteligência artificial criou um gargalo físico ignorado em Brasília — mas decisivo em Washington. Data centers devoram eletricidade e água em escala industrial. O Congresso poderia exigir licenciamento rigoroso e obrigar as big techs a financiar a expansão da rede.
Ocorre que a Casa Branca trata a liderança em IA como questão de segurança nacional. O veto está garantido para qualquer projeto que freie a expansão. A regulação efetiva, portanto, migra para o nível estadual, criando um mosaico regulatório fragmentado que investidores precisam mapear com lupa.
Imigração: a caneta do ICE fala mais alto
Comunidades latino-americanas e asiáticas votaram motivadas pelo medo de deportações arbitrárias. O Congresso pode aprovar resoluções, discursar, fazer audiências. A execução da política migratória, porém, reside em agências do Executivo chefiadas por indicados do presidente.
Quando a opinião pública reagiu à truculência visível, o ICE apenas trocou de tática: passou a operar de forma menos ostensiva. A lei não mudou; a visibilidade da aplicação, sim. Para empresas que dependem de mão de obra imigrante, a incerteza operacional permanece intacta.
O elefante na sala: a armadilha fiscal
Acima de todos os temas setoriais, paira o fantasma que assombra o mercado de títulos: dívida pública acima de 100% do PIB e déficit primário superior a 6%. As famílias já pagam a conta via juros de financiamento imobiliário nas alturas. A ruptura financeira virá se a trajetória não for alterada.
Aqui, a frustração é bipartidária. Republicanos apostam na falácia de “cortar desperdício e fraude” — o efêmero DOGE (Departamento de Eficiência Governamental) provou que a gordura orçamentária é miragem. Democratas, por sua vez, recusam-se a apresentar propostas de aumento real de arrecadação.
Imposto sobre fortunas: apelo eleitoral, baixa arrecadação
A derrota da taxação de bilionários na Califórnia (plebiscito de 3 de novembro) não foi acidente. O medo de fuga de capital para outros estados é real. Em nível federal, a barreira migratória desaparece, mas surgem outras: complexidade de avaliação de ativos ilíquidos, contestações judiciais intermináveis e, o principal, receita insuficiente para fechar o buraco do déficit.
Mesmo uma tributação agressiva sobre o 0,1% mais rico mal arranharia o rombo anual. A matemática não fecha sem uma base ampla.
O único cenário que muda o jogo
Os EUA têm carga tributária baixa frente a pares desenvolvidos. Uma reforma ampla — fechando brechas, elevando alíquotas progressivamente e simplificando o código — equacionaria o fiscal de forma sustentável. Isso exige, simultaneamente:
- Um presidente democrata com horizonte de longo prazo;
- Maioria democrata no Congresso disposta a quebrar o tabu da “terceira via” tributária.
Sem essa conjunção astronômica, o mais provável é a continuidade do status quo: déficits crescentes, juros altos e inflação latente.
O que observar daqui para frente
Para o tomador de decisão brasileiro, três variáveis ditam o curto prazo: a curva de juros americana (refúgio do déficit fiscal), a política comercial unilateral (tarifas como ferramenta geoeconômica) e a regulação estadual de IA/energia (oportunidades e riscos setoriais). O voto de meio de mandato mandou um recado. A estrutura de poder devolveu um “recebido, mas não acatado”. Planeje seus cenários assumindo que a inércia fiscal e o presidencialismo imperial são as únicas certezas nos próximos 24 meses.
