Economia

O colapso do Ueno: 1,2 mi ressarcidos, mas o comércio ainda sangra…

Clientes do Banco Ueno aguardam reembolso enquanto comércio de Ciudad del Este permanece fechado
Filas no Banco Ueno contrastam com lojas vazias na fronteira do Paraguai

O Banco Central do Paraguai confirmou que 1,2 milhão de correntistas do Banco Ueno já receberam seus depósitos de volta, num montante que supera 995 bilhões de guaranis — o equivalente a R$ 875 milhões. A injeção de liquidez, porém, não impediu que o comércio da fronteira entrasse em paralisia. O dinheiro está na conta, mas não gira na economia real.

Enquanto a autoridade monetária avança para a segunda fase de pagamentos, lojistas de Ciudad del Este relatam quedas de até 70% no faturamento. A promessa de normalização esbarra em critérios rígidos e no efeito cascata de salários travados.

Como funcionam as duas primeiras etapas

O cronograma priorizou os menores saldos. Na fase inicial, encerrada nesta sexta-feira (6), entraram clientes com até 10 milhões de guaranis (cerca de R$ 8,8 mil). A etapa atual, já em andamento, contempla quem tinha entre 10 milhões e 121 milhões de guaranis (R$ 8,8 mil a R$ 107 mil).

Para acessar o recurso, duas condições são inegociáveis:

  • Não possuir dívidas ativas com o próprio Ueno;
  • Ter conta ativa em outra instituição financeira paraguaia.

Quem tem empréstimos ou financiamentos pendentes vê o valor bloqueado para abatimento da dívida. O presidente interino do BC paraguaio, Pedro Acosta, admite que 60% da base foi coberta, mas restam cerca de 670 mil contas esperando definição.

O gargalo que trava o dinheiro na fronteira

Em Ciudad del Este, a poucos quilômetros de Foz do Iguaçu, o cenário é de portas abertas e caixas vazios. O comerciante Luiz, dono de uma loja de chaves e carimbos, resume o drama: “O negócio parou, parou uns 70%. A gente não tem movimento porque o dinheiro está todo parado”.

Grande parte das vendas no varejo local era liquidada via transferência para contas do Ueno. Com a liquidação do banco, o ciclo de pagamentos quebrou. Fornecedores não recebem, funcionários não sacam salários e o consumidor final — paraguaio ou brasileiro — deixa de comprar.

Salários retidos e incerteza doméstica

O impacto ultrapassa o balcão. Tania, vendedora em uma loja de roupas, viu o movimento cair pela metade. O salário dela caiu dias antes do bloqueio do banco e segue indisponível. “Infelizmente não tenho muito o que fazer, tenho que esperar”, diz.

Esse trava-salários atinge diretamente a classe média e os trabalhadores informais que dependem do fluxo diário. Sem previsão de liquidação das contas-salário vinculadas ao Ueno, o consumo discrecional evapora.

Próximos passos: o que muda na segunda-feira

A autoridade monetária sinaliza nova rodada de pagamentos para o início da semana. O foco deve ser os saldos superiores a 121 milhões de guaranis e as contas que não se enquadraram nos critérios anteriores — justamente o público de maior poder de fogo no varejo atacadista da região.

Mas a liberação gradual não resolve o problema de confiança. Comerciantes relatam que clientes brasileiros, habituados a cruzar a ponte para compras de volume, adiaram viagens por medo de instabilidade cambial e operacional.

O que observar daqui para frente

A normalização do crédito ao consumidor e a velocidade de reabertura de contas-salário em outros bancos ditarão o ritmo da recuperação. Se a terceira fase contemplar os grandes depositantes sem travas burocráticas, o fluxo de caixa do comércio fronteiriço pode voltar a respirar em semanas. Caso contrário, a sangria no varejo de Ciudad del Este tende a se estender pelo primeiro trimestre, com reflexos diretos na arrecadação e no emprego local.