O mercado de motocicletas no Brasil caminha para o melhor ano da história. A projeção para 2026 aponta 2,35 milhões de unidades vendidas, superando o recorde de 2,19 milhões registrado em 2025. Mas o volume esconde uma transformação mais profunda na forma como o brasileiro trabalha e se locomove.
Por que a moto virou o “carro popular” impossível
Enquanto modelos de entrada de automóveis ultrapassaram a barreira dos R$ 70 mil, a motocicleta ocupou o vácuo. Modelos de 110 a 125 cc saem por cerca de R$ 11 mil. As mais procuradas, na faixa de 150 a 160 cc, custam em torno de R$ 20 mil.
O financiamento de baixa burocracia completa a equação. Consórcios respondem por um terço das vendas, segundo a Abraciclo. Sem entrada e com prazos longos, a aprovação é acessível para quem está fora do mercado formal de crédito.
O motor invisível: aplicativos de entrega
Cerca de 22% de todas as motos vendidas no país têm como destino o delivery. A pandemia acelerou a adesão a plataformas como iFood e Rappi, criando uma frota de trabalho que não para de crescer.
Esse movimento atraiu capital chinês. 99 e Keeta disputam espaço, mas o iFood anunciou sozinho R$ 24 bilhões em investimentos até março de 2027. A guerra por entregadores virou disputa por quem coloca mais motos nas ruas.
- Honda: 65,6% do mercado (jan-out 2026)
- Yamaha: 13,8%
- Shineray: 6%
- Mottu: 4,8% (parceria com TVS)
A aposta bilionária da Honda e o peso de Manaus
Na quinta-feira (5), a Honda confirmou R$ 3,3 bilhões para o país até 2030. A fábrica de Manaus saltará de 1,6 milhão para 2,3 milhões de unidades/ano em 2029, com 2.000 novos postos de trabalho.
Mais de 90% da produção nacional sai do Polo Industrial de Manaus. Em 2025, o setor de duas rodas faturou R$ 44,8 bilhões na Zona Franca — segundo maior faturamento, atrás apenas de bens de informática (R$ 48,1 bi). A cadeia de fornecedores consolidada dificulta qualquer migração.
Elétricas, autopropelidos e a brecha regulatória
A Watts, do grupo Multi, aposta em scooters elétricas que dispensam CNH e emplacamento. Velocidade máxima de 32 km/h, sem IPVA. O modelo W125 atende empresas com metas de eletrificação de frota — cervejarias e grupos de segurança são clientes.
A fábrica tem capacidade para 100 mil unidades/ano, mas opera com ociosidade. Para preencher a lacuna, fechou parceria para montar a indiana Royal Enfield no mesmo complexo.
O lado humano: porta de entrada ou armadilha?
“A moto é a porta de entrada do jovem para uma atividade remunerada”, resume Sergio Oliveira, da Abraciclo. O economista Marcelo Neri (FGV Social) alerta: esses trabalhadores não têm seguro-desemprego nem proteção de saúde. A precarização nos acidentes é “muito premente”.
Um projeto de lei propõe piso de R$ 8,50 por entrega. Plataformas rejeitam, alegando repasse ao consumidor. Entregadores pressionam para que o texto avance.
Move Brasil: o que muda no financiamento
O programa federal financia até 100% da moto em 48 meses, sem entrada. Em outubro de 2026, 21 mil unidades já haviam sido contratadas via Move Brasil Entregadores e Motoapps.
Paralelamente, 99 e iFood criaram ecossistemas próprios:
- 99: parceria com Riba (500 scooters), Galgo, Vammo e fundo YvY Capital (meta de 600 mil elétricas até 2035)
- iFood: convênio com Caixa e BB, exclusividade com Mottu (200 cidades) e programa Minha CNH — banca 90% da categoria A para ciclistas; meta de 2 mil formados em 2027, 40% mulheres
O que observar daqui para frente
A convergência entre financiamento público, capital privado e pressão regulatória define o próximo ciclo. Se o piso por entrega virar lei, o custo da logística de última milha sobe — e o repasse atinge o consumidor final. Ao mesmo tempo, a eletrificação forçada por grandes frotas corporativas pode antecipar a troca da frota a combustão. O recorde de 2026 pode ser apenas o começo de uma reestruturação que vai além das duas rodas.
