O advogado Willer Tomaz nega qualquer ligação com a empresa que movimentou R$ 17,7 milhões para a influenciadora Virginia Fonseca, mas documentos da Polícia Federal contam outra história. A investigação envolve lavagem de dinheiro, um senador da República e uma disputa de terras que chegou ao Supremo.
Enquanto Tomaz vive em Miami, a Justiça bloqueou seus imóveis no Brasil e a pressão política aumenta. O que está por trás dessa teia de transferências, offshores e amizades perigosas?
O rastro do dinheiro: AMP Pay e a Talismã Digital
Entre março e setembro de 2024, a Talismã Digital — holding da influenciadora que na época tinha o cantor Zé Felipe como sócio — recebeu R$ 22,4 milhões. Desse total, R$ 17,7 milhões saíram de uma única origem: a AMP Pay.
Os números chamam atenção pela disparidade. A AMP Pay foi aberta em outubro de 2023, em Itajaí (SC), com capital social de apenas R$ 50 mil. Em janeiro de 2024, entrou no Simples Nacional, regime restrito a faturamento anual de até R$ 4,8 milhões. Em sete meses, porém, repassou à Talismã quase quatro vezes o teto permitido para todo o ano.
Relatórios de Inteligência Financeira (RIFs) analisados pela CPI das Bets e revelados pela revista piauí em junho expuseram a movimentação. O banco comunicou ao Coaf que as transferências eram “incompatíveis com o perfil cadastral da pagadora”.
O e-mail que contradiz a defesa
Tomaz afirma não ser sócio, nem acionista, e diz não conhecer os donos da AMP Pay. “Mais uma fake news envolvendo o meu nome”, publicou no Instagram na sexta-feira (16).
Mas a PF tem um documento-chave: um e-mail enviado ao Magnum Bank em 2024 no qual o advogado se declara sócio ou acionista da empresa. O dono registrado da AMP Pay, por sua vez, nega conhecê-lo.
A defesa de Tomaz aponta para o banco: “A lista de empresas usada para me ligar à AMP Pay foi montada pelo próprio Magnum Bank”. Segundo ele, no formulário enviado à instituição, a empresa foi expressamente excluída — documento que, diz, “ninguém mostrou”.
Blaze, processos e a pergunta que fica
O advogado adiciona outro argumento: “Eu processo a Blaze na Justiça. Alguém processa a empresa que supostamente controla?”. A referência é à casa de apostas investigada por suposta lavagem de dinheiro e pirâmide financeira.
Sobre os repasses a Virginia, a posição é direta: “Quem tem que explicar são as partes envolvidas. Não eu. A verdade está nos documentos”.
Terras em Angra: a disputa com Richarlison e a caneta rápida
Na mesma sexta-feira (6), a Secretaria do Patrimônio da União (SPU) suspendeu os registros de quatro imóveis de Tomaz na Ilha Comprida, Angra dos Reis (RJ). Um deles é o terreno disputado pelo atacante Richarlison.
A decisão, assinada por Douglas Gualberto Carneiro, atendeu representação da deputada Tabata Amaral (PSB-SP). Entre as irregularidades apontadas:
- Autorização de ocupação concedida em menos de duas horas após o pedido
- Processo administrativo conduzido durante o governo Jair Bolsonaro
- Anotações judiciais nas matrículas determinadas pelo ministro Alexandre de Moraes (STF)
Richarlison afirma ter investido R$ 10 milhões na compra de uma mansão na região em 2020. Acusa o senador Flávio Bolsonaro (PL) de ter se aliado a Tomaz para retirar seus direitos. Flávio nega envolvimento, embora tenha visitado o imóvel e figure como testemunha no processo.
O escudo político e a perseguição alegada
Em entrevista à Folha de S.Paulo, Flávio Bolsonaro saiu em defesa do “amigo”: “Willer Tomaz foi perseguido simplesmente por ser meu amigo. Nunca fui sócio dele. Acreditavam que, ao virar a vida dele do avesso, poderiam me atingir nas eleições. A eleição já passou. Peço que volte à normalidade”.
Além de Tabata Amaral, o deputado Rogério Correia (PT-MG) e a organização Quebrando Muros também acionaram a SPU. A disputa ganhou holofotes na campanha de 2026, quando Lula acusou Tomaz de tomar o terreno do jogador e prometeu investigação da PF.
O que observar daqui para frente
Três frentes avançam em paralelo: a investigação da PF sobre lavagem de dinheiro, o inquérito da SPU sobre a regularidade das terras da União e a CPI das Bets, que já tem os RIFs em mãos. O bloqueio determinado por Moraes atinge outros três imóveis além do disputado com Richarlison — sinal de que o cerco patrimonial é amplo.
Para quem acompanha o tabuleiro, a pergunta central permanece: a AMP Pay era apenas uma empresa de marketing direto com faturamento explosivo e atípico, ou cumpria outra função no circuito financeiro que liga advogados, políticos e influenciadores? Os próximos relatórios do Coaf e as oitivas da CPI devem ditar o ritmo das respostas.
