Economia

Por que 30 ações podem ser mais arriscadas que 10?

Gráfico comparando carteira com 30 ações correlacionadas versus 10 ações diversificadas setorialmente
Diversificação real depende de correlação, não apenas quantidade de ativos na carteira.

Ter três dezenas de papéis na carteira não garante proteção; a correlação entre eles é que dita o risco real. Um investidor com 30 ações concentradas em bancos e commodities pode estar mais exposto do que outro com apenas dez papéis setorial e geograficamente dispersos. Entender essa diferença separa amadores de profissionais.

A armadilha da contagem simples

A teoria moderna de portfólio, premiada com Nobel a Harry Markowitz, provou que a volatilidade de um conjunto depende de como os ativos se movem juntos. Se cinco bancos caem simultâneamente por causa da inadimplência, adicionar um sexto banco pouco altera o cenário.

O ganho real vem de juntar ativos que reagem a motores econômicos distintos. Uma industrial, uma varejista e uma tech internacional costumam entregar essa descorrelação.

Existe um “número mágico”?

Estudos clássicos de Evans e Archer (1968) e Statman (1987) sugeriram que 30 a 40 ações eliminariam a maior parte do risco específico — desde que escolhidas aleatoriamente. Na prática, carteiras montadas com critério não seguem essa regra.

O benefício é decrescente: a segunda ação reduz muito o risco; a vigésima, quase nada. Além disso, risco de mercado (crises, juros, recessão) nunca some, não importa quantos papéis você tenha.

O peso invisível: concentração disfarçada

Duas carteiras com dez ações podem ter perfis radicalmente diferentes. Veja o impacto da distribuição de capital:

  • Carteira A: 10 posições de 10% cada → Número efetivo = 10.
  • Carteira B: Uma posição de 55% e nove de 5% → Número efetivo ≈ 3.

Na segunda, embora existam dez tickers, o destino do patrimônio depende praticamente de uma única empresa. O “número efetivo de ações” expõe essa mentira estatística.

Fronteiras geográficas não salvam tudo

Comprar ações de setores variados no Brasil ainda te deixa refém da Selic, do fiscal e do câmbio local. Internacionalizar abre exposição a outras moedas e ciclos econômicos, mas crises globais (como 2008 ou 2020) sincronizam quedas em bolsas do mundo todo.

A diversificação geográfica reduz risco-país, não risco-sistêmico.

O perigo de diversificar demais

Carteiras com 60, 80 papéis viram “fundos caseiros” mal geridos. O custo de acompanhamento explode e posições minúsculas (0,5% a 1%) tornam irrelevante até uma decisão brilhante. Fundos e ETFs resolvem isso com escala; o investidor individual, não.

Diversificar sem critério dilui retorno sem garantir segurança extra.

A pergunta que realmente importa

Esqueça a meta numérica. Antes de comprar o próximo ativo, responda:

  • Se houver recessão global, quantas das minhas posições caem juntas?
  • Uma alta de juros derruba a maior parte da carteira?
  • Estou exposto a apenas um bloco regulatório ou cambial?
  • O tamanho da nova posição justifica o trabalho de monitorá-la?

Essas questões revelam a verdadeira concentração de risco.

O que observar daqui para frente

Diversificar a carteira de ações é apenas o primeiro degrau. Um investidor com 40 papéis, mas 100% do patrimônio em renda variável, continua vulnerável ao ciclo da bolsa. A proteção completa exige classes de ativos descorrelacionadas: renda fixa indexada à inflação, caixa, imóveis ou ativos internacionais.

O segredo não é quantos tickers você tem, mas quantos riscos distintos decidem o seu resultado. Revise os pesos, mapeie as correlações e elimine concentrações antes de buscar o próximo nome.