A margem paraguaia da Itaipu Binacional confirmou que cerca de R$ 1 bilhão permanece retido no Ueno Bank, instituição que entrou em processo de resolução pelo Banco Central do Paraguai (BCP) no início de novembro. O valor supera em muito as estimativas anteriores divulgadas pela própria empresa e expõe a gestão de caixa da hidrelétrica em um momento político sensível.
Mas a quantia bloqueada é apenas a ponta do iceberg. O caso levanta dúvidas sobre os critérios de alocação de recursos públicos e o real impacto financeiro para a binacional nos próximos meses.
O tamanho real da exposição
Segundo comunicado oficial publicado no perfil da entidade no X (antigo Twitter), os saldos apurados em 3 de novembro — dia em que o BCP interveio no banco — totalizam 115,2 bilhões de guaranis (R$ 101,3 milhões) e US$ 163,8 milhões (R$ 901,7 milhões). Somados, atingem aproximadamente US$ 182 milhões.
Para dimensionar: esse montante representa 7,6% do total de remessas vindas do Brasil entre 2024 e 2026, período em que o caixa paraguaio atingiu recordes históricos. A binacional alega que os depósitos serviam para cumprir obrigações contratuais e convênios, incluindo repasses à estatal de energia Ande.
Discrepância entre o dito e o feito
O número agora revelado choca com a transparência anterior. Em 13 de outubro, a Itaipu divulgou apenas a média dos saldos dos três anos anteriores, onde o Ueno aparecia com cerca de US$ 49,8 milhões. A diferença sugere uma concentração repentina de recursos na instituição nos meses que antecederam a intervenção.
- Média histórica (divulgada em out/24): US$ 49,8 mi + 27,7 bi de guaranis.
- Saldo real em 03/nov/24 (divulgado agora): US$ 163,8 mi + 115,2 bi de guaranis.
- Variação: Exposição em dólar mais que triplicou.
Entre os dias 3 e 5 de novembro, com o banco já fechado, a assessoria da binacional não respondeu aos questionamentos da imprensa paraguaia sobre os valores exatos depositados.
Gestão de risco e rendimentos passados
A binacional defende sua política de investimentos. Afirma operar apenas com instituições habilitadas com rating AAApy ou AApy (ou equivalentes) e que diversifica o caixa entre os bancos parceiros. No comunicado, destaca que a gestão de disponibilidades rendeu mais de US$ 450 milhões (R$ 2,5 bilhões) no triênio 2024-2026.
Entretanto, a regra de diversificação não impediu que uma única instituição concentrasse uma fatia relevante do patrimônio líquido no momento da quebra. A exposição da Itaipu é, hoje, cerca de 11 vezes maior que a da Cajubi, fundo de pensão dos empregados paraguaios, que reportou R$ 86 milhões no mesmo banco.
O cenário político por trás da intervenção
A relação com o Ueno Bank iniciou em janeiro de 2025, já na gestão do então presidente Santiago Peña. Na sexta-feira (6), Peña foi destituído por impeachment; neste sábado (7), teve a prisão preventiva decretada. Ele é investigado por lesão de confiança e administração em proveito próprio justamente no caso Ueno.
A margem brasileira da Itaipu, por sua vez, emitiu nota na sexta-feira garantindo que não possui recursos sob sua gestão no Ueno Bank, reforçando que cada lado decide suas aplicações de forma autônoma. “Esta situação não afeta o desenvolvimento normal das atividades da Itaipu Binacional”, diz o texto.
O que observar daqui para frente
A binacional afirma que iniciou ações legais na Promotoria-Geral do Estado e acompanha os procedimentos do BCP para recuperar os ativos. O processo de resolução permite a transferência de depósitos para outras instituições e a liquidação do restante, mas não há estimativa de prazo nem de percentual de recuperação.
Para investidores e gestores que monitoram ativos de infraestrutura e soberanos na região, três pontos merecem atenção nas próximas semanas:
- A velocidade do BCP na liquidação/transferência dos ativos do Ueno.
- Eventuais reflexos no fluxo de caixa da margem paraguaia e na capacidade de honrar compromissos com a Ande e convênios sociais.
- Possíveis mudanças nas regras de alocação de caixa da binacional após a exposição do risco de concentração.
O desfecho desse episódio deve ditar não só o prejuízo final, mas também a credibilidade da governança financeira de uma das maiores geradoras de energia do mundo.
