O Senado paraguaio destituiu Santiago Peña por unanimidade nesta sexta-feira (6), encerrando um mandato de pouco mais de três anos marcado por uma crise bancária e dois atritos diplomáticos graves com o Brasil. O estopim imediato foi o fechamento do banco digital ueno, mas a relação bilateral já vinha desgastada por episódios que tocaram em nervos sensíveis: a soberania digital e a memória histórica.
O que levou um presidente eleito com ampla base de apoio a perder o cargo tão rápido? A resposta passa por Brasília e por um canhão de 12 toneladas.
A operação que vazou a negociação de Itaipu
Em março de 2025, uma revelação do portal UOL — confirmada pela TV Globo — expôs que a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) autorizou invasões a sistemas da Presidência e do Congresso do Paraguai. O alvo: obter dados sigilosos sobre as tratativas do Anexo C do Tratado de Itaipu, que define as bases financeiras da energia da usina binacional.
Um servidor da Abin depôs à Polícia Federal detalhando a ação. A operação começou em junho de 2022, no governo Jair Bolsonaro, e prosseguiu após a posse de Lula em janeiro de 2023. O Palácio do Planalto e o Itamaraty admitiram a existência da ação em nota conjunta, afirmando que ela foi encerrada em março de 2023, quando a nova gestão tomou conhecimento.
O impacto foi imediato. Assunção convocou o embaixador brasileiro e suspendeu as negociações da revisão tarifária. Para um país que depende da receita de Itaipu para cerca de 30% do orçamento nacional, o gesto equivalia a fechar a torneira do diálogo.
- Início da operação: junho de 2022 (governo Bolsonaro)
- Continuidade: janeiro a março de 2023 (governo Lula)
- Alvos: Presidência, Congresso e negociadores de Itaipu
- Reação paraguaia: suspensão do Anexo C + convocação de embaixador
Quando a história vira arma diplomática
O segundo atrito eclodiu em julho de 2026. Em discurso no interior de São Paulo, Lula afirmou que o Brasil “não pode esquecer que o Paraguai invadiu o território brasileiro no século 19”. A referência à Guerra da Tríplice Aliança (1864-1870) — conflito que dizimou entre 60% e 70% da população paraguaia, segundo estimativas históricas — provocou reação em cadeia.
O chanceler Rubén Ramírez Lezcano prometeu defender a “dignidade nacional”. A Câmara dos Deputados aprovou moção de repúdio. Dias depois, o governo entregou nota diplomática de protesto ao embaixador brasileiro, resgatando uma reivindicação antiga: a devolução de troféus de guerra, entre eles o canhão El Cristiano.
Mas o efeito mais relevante aparece em outro setor.
O canhão que pesa 12 toneladas e uma década de pedidos
El Cristiano é um obuseiro de 2,94 metros de comprimento, fundido com o bronze de sinos de igrejas paraguaias durante o conflito. Capturado pelas tropas brasileiras em 1870, está exposto no Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro. O Paraguai pede a restituição há mais de dez anos, alegando que a peça é símbolo da resistência nacional.
No Brasil, o artefato é patrimônio tombado pelo Iphan. Em agosto, a colunista Bela Megale (O Globo) noticiou que Lula autorizou a devolução. A transferência, porém, depende de trâmites diplomáticos e negociações técnicas entre os dois países — um processo que costuma arrastar-se por anos.
O que observar daqui para frente
Com a saída de Peña, o vice-presidente assume interinamente e a agenda bilateral entra em compasso de espera. Três pontos merecem atenção nas próximas semanas: a retomada (ou não) das negociações do Anexo C de Itaipu, os desdobramentos do inquérito da PF sobre a espionagem da Abin e os passos concretos para a eventual devolução do El Cristiano.
Para investidores e empresários que operam na região, o sinal é claro: a estabilidade política paraguaia continua atrelada à gestão da relação com o Brasil — seja no campo da energia, da inteligência ou da memória histórica.
